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sexta-feira, julho 26, 2002
O Peso do Metal em ...And Justice For All
Depois de perder seu mais louco integrante em um acidente na Suécia (o baixista Cliff Burton), durante a turnê de “Master Of Puppets” em 86, os outros três componentes, James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammett da maior banda de metal da época (Metallica) perderam os seus rumos e, consequentemente, os da banda também.
Demorou um tempo e muitas cervejas até eles se recuperarem do golpe sofrido nessa perda trágica, e também um tempo para encontrar um baixista que chegasse perto do lendário Burton. Nisso, apareceu o tal Jason Newsted, que muitos acreditam ser um integrante original da banda, coisa que não é verdade. Jason entrou pra banda depois de um teste bastante peculiar: ele teria que beber e beber e beber até onde não mais poder, caso fosse aprovado pela banda, ele estaria dentro da mesma, e foi o que aconteceu. Depois desse inigualável e lendário “teste”, Jason entrou para a banda e gravou o EP “Garage Day Re-Revisited”, lançado em 1987 e que possui cinco covers de bandas heavy, como o Holocaust, Misfits e Diamond Head. Esse, na verdade foi o teste final para Jason e para a própria banda, de que eles agora poderiam fazer “O Álbum Metal” do Metallica, e então em janeiro de 88 eles entraram no estúdio para começar as gravações dum dos maiores álbuns da história do metal: “...And Justice For All”.
Lançado no mesmo ano, esse álbum traz a palavra heavy em todos os aspectos, desde as variações de guitarra nas músicas, as pedradas de bateria, as apenas nove, mas quilométricas músicas do disco, e a alma escura e perdida das letras do Metallica. Foi um álbum que reafirmou para a própria banda que eles não haviam perdido o peso de fazer metal.
Muitos podem se lembrar apenas da música “One”, que foi a que tocou e ainda nas rádios, por ter clipe que passou exaustivamente na MTV, mas julgar o disco apenas por essa faixa seria uma injustiça muito grande com o “Justice”. “Blackened” é de um discurso que nos chama para vermos a morte da mãe Terra, o escurecimento total causado por quem aqui vive. Entre suas guitarras de solos pesados e perfeitos, nas viradas de bateria e no baixo obscuro e soturno se vê um Metallica buscando o seu caminho. Mas preste a atenção na faixa-título. “...And Justice For All” é de uma viagem absolutamente insana. São mais de nove minutos de barulheira total, só que, com um importante quesito que prende a atenção dos fãs: as variações. A música tem umas trocentas variações, que mudam o estilo, o ritmo, as viradas, os solos e tudo que mais puder na faixa, deixando os fãs da banda em deliciosa hipnose por longos nove minutos. O título da música é irônico, pois na verdade a letra fala da justiça comprada, violentada, destruída pelo dinheiro que manda no mundo, uma letra bem atual para nossos dias.
Vamos a posteriormente comercial “One”, que foi mutilada para ter seu clipe veiculado na MTV norte-americana na época. Mas a letra dessa música é algo que deixa quem lê emocionado, triste, revoltado, num misto de ódio e pavor que apenas a massa de guitarras de One no meio da música, faz quem ouve se libertar da dura realidade que a letra traz, faz a pessoa querer quebrar tudo em casa, mas, ao mesmo tempo, chorar compulsivamente e querer que tudo isso não passe apenas de uma letra de música, mas sabendo que a morte, e no caso, a morte numa guerra, é tão real quanto o que a letra diz.
Seguindo pelas outras faixas deste disco, nota-se, além do magnífico instrumental, já citado, a impressionante temática do disco, um misto de desalento e raiva, são as contradições revelando o mal que ocupa a mente das pessoas, a sujeira de nossa Terra, a desconfiança, as trevas e a liberdade que não existe na visão do disco.
“To Live is to Die” seria a “balada” do disco, grosseiramente falando, porque ela tem um violão de início, bem calmo, nos preparando para nos transportar a uma nova dimensão que essa música nos leva. Mas isso cai por terra, porque o peso do instrumental que recai sobre a música é algo surpreendente. Outro fator interessante é a variação da música, depois desse peso, vem um solo extraordinário, que realmente leva a gente a um lugar distante. Após isso, vem uma parada e o clima “calmo” é retomado, até com algumas cordas, sendo depois cortado pela guitarra pesada e pela pequena letra da música, que só aparece no fim e até seria dispensável se não mostrasse mais um lado tenebroso e triste do ser humano, quando ele diz que um homem mata uma parte do mundo quando mente e que ele não agüenta mais viver tudo isso. A música volta a calmaria do violão, até que uma seqüência de verdadeiras explosões de guitarra e bateria surgem, assustando os mais distraídos.
Essa é a última música e chama-se “Dyers Eve”. Num clima pesado e muito veloz, uma verdadeira paulada, pra fechar bem o disco, com um discurso de revolta contra os pais por colocarem a criança em um mundo no qual ele não pôde suportar, distribuindo ódio por todos os lados e uma dor de quem foi condenado para a eternidade no inferno.
O disco é um verdadeiro clássico, de peso incrível e poucas vezes visto antes no mundo do metal, um dos trabalhos mais sofisticados do Metallica e que teve um retorno tão grande que a excursão desse disco durou dois anos, passando inclusive pelo Brasil, em 89. Realmente vale a pena ter em casa para refletir com um pouco de lucidez das letras do disco, que falam de coisas que ninguém mais presta mais a atenção, e também se desprender das amarras do rock de rádio atual. Esse disco tem de um peso tão intenso, um heavy metal de gente tão grande que nem mesmo o próprio Metallica chegou perto de fazer novamente um dia.
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