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sábado, outubro 29, 2005
Definição de adversários se aproxima (*)
Rodrigo Herrero
E vai se aproximando a definição das últimas duas vagas para o Mundial de Clubes da Fifa, a ser disputado em dezembro no Japão. Coincidentemente, dos dois representantes que ainda faltam decidir (da Ásia e da África) sairá o semifinalista que enfrentará o São Paulo no dia 14 do mesmo mês.
A Liga dos Campeões da Africana conheceu seus dois finalistas no último dia 16, após início da etapa ter ocorrido no dia 24 de setembro. No clássico do Egito, Al Ahli (que já conquistou três vezes o troféu: 1982, 1987 e 2001) superou o Zamalek em dois confrontos, ambos realizados na capital Cairo: 2 x 1 e 2 x 0, carimbando o passaporte para a finalíssima.
Os egípcios, que são considerados favoritos, enfrentarão a equipe do Etoile du Sahel, da Tunísia, que eliminou o favoritismo do Raja Casablanca, do Marrocos, já conhecido dos brasileiros, pois os marroquinos disputaram o primeiro Mundial de Clubes da Fifa, realizado no Brasil em 2000. O confronto se deu com duas vitórias por 1x 0 dos tunisianos, que fazem sua segunda final consecutiva pela Liga. Em 2004, eles perderam nos pênaltis para os nigerianos do Enyimba.
O primeiro confronto das finais entre Etoile du Sahel e Al Ahli acontece na cidade tunisiana de Sousse e está marcado para o próximo dia 29. A volta será no Egito, ainda sem data confirmada pela Liga Africana. Segundo informações do site da Confederação Africana de Futebol, ela deve ser disputada entre os dias 11, 12 ou 13 de novembro.
Já na Liga dos Campeões da Ásia, o Oriente Médio mostra toda a sua força. As semifinais foram disputadas nos dias 28 de setembro e 12 de outubro e Al Ittihad, da Arábia Saudita, e Al Ain, dos Emirados Árabes Unidos, passaram como verdadeiros tratores sobre seus adversários, com goleadas traumatizantes, e se classificaram para a final asiática.
O Al Ittihad, campeão da Liga em 2004, eliminou o Busan I' Park, da Coréia do Sul, com duas vitórias: 5 x 0 fora de casa e 2 x 0 em seus domínios. Já o Al Ain, vencedor do torneio em 2003, meteu 6 x 0 no jogo de ida contra os chineses do Shenzhen Jianlibao, o que facilitou no jogo da volta, na China, quando houve empate por 0 x 0.
A primeira partida entre as duas equipes está marcada para o Tahnon Bin Mohammed Stadium, do Al Ain, na próxima quarta-feira (26). O jogo de volta, que será realizado na Arábia Saudita, ainda não consta de data marcada no site da Liga Asiática, mas deve acontecer entre 11 e 13 de novembro, segundo a programação da Fifa.
O vencedor de cada Liga irá jogar entre si no dia 11 de dezembro por uma vaga nas semifinais do Mundial de Clubes da Fifa. Quem vencer pega o São Paulo, no dia 14. O derrotado irá disputar a decisão do 5º e 6º lugar no dia 16. Do outro lado da chave, Sydney FC, da Austrália, e Deportivo Saprissa, da Costa Rica, se enfrentam no dia 12. Quem vencer pega o Liverpool no dia 15. O perdedor enfrenta o derrotado do outro grupo. A decisão do 3º e 4º lugares e a finalíssima estão marcadas para o dia 18 do mesmo mês.
O futuro do São Paulo no dia 14 está sendo traçado. Seu adversário sairá de 4 países: Tunísia, Egito, Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos. Os dois primeiros são conhecidos como a "África branca". Coincidência ou não, todos os quatro possuem predominância árabe e islâmica, além da abundância do petróleo, principalmente nos países do Oriente Médio.
Curiosidades à parte, os prováveis adversários do Tricolor do Morumbi são um tanto menos conhecidos como os tradicionais times da Nigéria (caso do Enyimba que venceu as duas últimas Ligas). Mas cuidado, pois quase todo torcedor já ouviu falar do Al Ittihad, que vive contratando jogador canarinho, o que revela ter grana para trazer bons atletas estrangeiros. O mesmo vale ao Al Ain, que não chegou nessa fase à toa, até por já ter vencido uma vez o torneio.
Os tunisianos do Etoile du Sahel, à distância, parecem ser a zebra, mas que desejam se tornar emergentes, afinal, trata-se da sua segunda final seguida. O Al Ahli é indicado como o favorito na sua Liga pelos 3 títulos que possui, além de ter desbancado outro grande africano, o Zamalek, no clássico regional. É esperar para ver, mas com a mente dos são-paulinos bastante tranqüila e confiante, pois nenhum dos quatro parece meter medo no tricampeão sul-americano. Pelo menos na semifinal.
(*) Texto escrito há duas semanas originalmente para o Papo de Bola.
domingo, outubro 09, 2005
Um Novo PT?
Publicado na Folha On Line: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u73119.shtml.
09/10/2005 - 09h51 Recém-criado, PSOL já enfrenta profusão de correntes internas
FÁBIO ZANINI da Folha de S. Paulo
Legalizado há menos de um mês, o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) reproduz a divisão em tendências internas que muitos problemas causou ao partido do qual derivou, o PT. Pelo menos dez agrupamentos já disputam espaço na nova legenda de extrema esquerda. Unidos por um vago projeto socialista, têm táticas e prioridades diferentes, que começam a ficar explícitas, mais ainda após o inchaço das últimas semanas. "Até agora tudo foi festa, agora é que vai complicar", diz o deputado federal Ivan Valente (SP), um dos cinco que debandaram do PT em setembro e levaram a sete a bancada do PSOL.
A legenda mudou, mas a fidelidade a correntes internas existentes no PT permanece. A Democracia Socialista, conhecida como DS, maior ala radical petista, está representada também no PSOL, pela senadora Heloisa Helena (AL) e os deputados federais João Alfredo (CE) e Orlando Fantazzini (SP). Os dois lados da DS, mesmo divididos por um muro partidário, mantêm ligações políticas. A Ação Popular Socialista sobrevive no PSOL representada por Valente e por Maninha (DF). O Movimento de Esquerda Socialista migrou do PT junto com a deputada Luciana Genro (RS), enquanto a Corrente Socialista dos Trabalhadores acompanhou o deputado Babá (PA).
No PSOL estão ainda outros grupos menores oriundos do PT, além de dissidências do PSTU, do PDT e até uma ala que era ligada ao MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), identificada com o cacique peemedebista Orestes Quércia. "Independentes" e intelectuais completam a miscelânea. No primeiro teste da bancada, já houve racha. Maninha e Valente votaram em Aldo Rebelo (PC do B-SP) para presidir a Câmara. Os demais anularam o voto.
Evitar que a herança das tendências petistas se torne maldita é o primeiro desafio do novo partido. "O problema do PT não foi ter tendências. O problema é que as tendências formavam blocos estanques", diz Alfredo. O PSOL aposta num conceito clássico da esquerda para escapar da armadilha: o consenso progressivo. Só haverá fechamento de questão com 75% de apoio, o que levaria, na visão otimista, à busca incessante pelo acordo. O risco óbvio é levar à paralisia das decisões. "O limite para construir esse consenso não pode ser ad infinitum", diz Fantazzini.
O ponto ainda mal resolvido na identidade do PSOL tem relação com a sombra do PT e de Luiz Inácio Lula da Silva. Dois campos, um ultra-radical e outro um pouco menos, são nítidos. O núcleo mais antigo, formado pelos fundadores expulsos do PT, pede o fim do governo Lula, com a revogação do que resta de seu mandato por plebiscito. Consideram a administração atual igual à de Fernando Henrique Cardoso. Os recém-chegados ironizam, definindo-se como "a esquerda do PT que virou direita do PSOL". Reconhecem méritos no governo, apesar da avaliação de que é decepcionante. "Não dá para considerar que Lula e a aliança tucano-pefelista são rigorosamente a mesma coisa", diz Chico Alencar.
Muitos dos que chegaram recentemente ainda se assustam com o radicalismo de algumas propostas, como a que visa anular todas as votações da atual legislatura, porque o "Congresso do mensalão" seria ilegítimo. Por isso, alguns grupos mantêm ainda um pé atrás. Estariam sob "filiação democrática", jargão que o PSOL abraçou para definir uma situação de integração provisória, até que se defina melhor o programa do partido. Nessa situação se encontram Fantazzini, Valente e Maninha. "É uma fase de experimentação. Os termos da filiação agora é que estão sendo discutidos", afirma Fantazzini. Enquanto durar essa fase, não estão obrigados a se submeter às decisões da Executiva, o que, na prática, cria duas classes de deputados na bancada.
A briga pela real concepção de partido ocorrerá no primeiro semestre de 2006, quando o PSOL fará um congresso, apontando para a eleição presidencial, em que terá Heloisa Helena como candidata. A senadora, maior referência do partido, paira sobre as diversas tendências, reunindo características dos vários campos. Mais ou menos como Lula fez durante décadas no PT.
domingo, setembro 04, 2005
Essa aqui é uma coluna (natimorta) que era para ter sido publicada no Fuckoff Zine na edição de agosto, mas que acabou por não rolar mais o projeto.. enfim... o texto é legal, achei que deveria publicá-lo aqui...
Chega de frio!
Nessa edição eu vou fazer jus ao nome da coluna e vou disparar coisas aqui até eu sentir que o texto esteja de bom tamanho. É, isso mesmo. Não há tema aqui neste mês, a idéia é deixar fluir. Até porque, convenhamos, depois da edição de julho pesadíssima, repleta de conteúdo político, investigativo, analítico, enfim, cansativo, até os escribas desta zine se sentiram exaustos e no dever de dar uma "relaxada" em agosto.
Não que o objetivo jornalístico de sempre tenha sido deixado de lado, mas a abordagem que prometemos no primeiro editorial, com retratos do cotidiano (parafraseando um moribundo blog que tenho), terá vez agora e espero que consigamos mesclá-la na seqüência deste trabalho. Lembrando que a edição de julho foi especial, devido aos acontecimentos neste país-corrupção. Mas agora retomamos o curso natural da vida desta zine maluca.
E um assunto que eu gostaria de escrever sem as amarras do jornalismo é uma tríade que costuma me demolir nessa época: julho-frio-melancolia. Esses três elementos batem tão forte nesse período que meu comportamento já um tanto variado (é o que costumam dizer dos geminianos) se torna absolutamente volúvel. Isto é, se de manhã eu acordo desconcertado por causa de uns sonhos que tive e não entendi patavinas, o fato de chegar no trabalho (para quem não sabe, eu trabalho numa produtora e sou uma espécie de editor-jornalista-faz tudo no Site do Padre Marcelo) e brincar com a molecada (os editores de lá são quase todos da minha idade) já me deixa mais animado. Ao passo que, horas mais tarde, alguma notícia ou contato não satisfatório durante o dia (seja numa conversa com amigos ou mesmo problemas no site) já me basta para tirar meu bom humor e trazer de volta aquela tristeza inglesa à baila de meus pensamentos.
E outro dia eu conversei com o pessoal que me agüenta cotidianamente no serviço e consegui dar uma ilustração bastante interessante sobre meu estado de espírito, principalmente quando estou em plena excitação, que ocorre quando muitas coisas diferentes pipocam na minha mente: eu fico tão vulnerável quanto a minha personalidade, que posso passar de um estado de euforia absoluta, em que tudo parece maravilhoso, para instantes de depressão profunda, que tudo parece dar errado e nada mais tem solução.
Pode até parecer engraçado, mas esse tipo de comportamento ocorre com muita freqüência no inverno, principalmente no famigerado mês de julho, que costuma travar minha vida e derrubar minha auto-estima, complicando um pouco os meses seguintes. Ainda mais quando a cabeça começa a ser ocupada por sentimentos que andavam um tanto enferrujados. Por isso, torço logo para esse caos juliano acabar e eu conseguir viver sem tantas mudanças de temperatura (no corpo e na alma). Eu que nem chego a odiar o mês das férias de meio de ano da garotada, mas realmente, acordar cedo nesse frio, sair de casa com aquele vento gelado, nuvens acinzentadas e tristes, derruba qualquer um.
Recado
Só para não passar em branco quero avisar o mais novo canal em que vosso querido Herrero passa a fazer colaborações jornalístico-opinativas. Trata-se do Papo de Bola - O Site, do gaúcho gente boa Edu César, editor e dono do site. Ele que tem contato com meio mundo da imprensa esportiva e, mesmo assim, resolveu abrir espaço a este escriba aqui, que está muito grato e feliz por poder falar de futebol a quem gosta de ler sobre. É mais um sonho que se concretiza.
quarta-feira, agosto 31, 2005
Existência
Pedaços de luz vagueiam na escuridão Poeira cósmica flutua pelo vácuo Planetas perdidos, corações partidos Assim sempre foi a involução do universo.
A Terra não pára de girar Eu estou tonto por tanto não saber Vemos estrelas, pontos brilhantes no céu Mas não compreendemos porque nosso mundo é assim.
Florestas devastadas riem de nossa mediocridade Rios poluídos pisam sobre nossa burrice A natureza faz escárnio do homem Ser máximo, acima de tudo, tudo para aprender.
Nuvens no céu, sol inexiste O nublado traz o frio e antevê o temporal As águas caem e lavam a lama de nossa consciência Mas estamos prontos para sujar tudo de novo.
Universo paralelo, vida em paradoxo Tudo o que vivemos é o que vemos É difícil acreditar em tudo o que sentimos Nossa existência encontra-se em frangalhos.
Sinto que não existo Resisto a tudo o que me fazem Espero apenas ter havido Lembranças que apontem algum sentido.
08/August/2005.
terça-feira, agosto 09, 2005
Nunca foi fácil
O cotidiano é muito igual Pessoas conversam sobre o trivial Riem, rezam, pensam, nada fazem Observam as agruras miseráveis pelo vidro do metrô.
Viver nunca foi fácil Trancar-se num quarto parece bem mais simples Fugir é muito mais difícil do que se possa imaginar Ficar parado traz pensamentos que nunca vão embora.
Encarar a rotina sufocante do trabalho Olhar no espelho e ver apenas um Nada a declarar, sem muito que esconder A busca se revela cada vez mais fútil, inútil.
O jeito é correr, trabalhar, se mostrar capaz Enquanto atrás da montanha de pedra o sol desmorona Fingir já não traz mais sossego O céu se apagou enquanto as pessoas fechavam suas vidas.
Respeito! Liberdade! Bondade! Igualdade Gritos silenciosos ecoam no vácuo dos pensamentos Nunca foi fácil viver, sem reflexo Sempre será essa a sina da existência.
08/August/2005.
segunda-feira, julho 11, 2005
London, London
Por Flavio Gomes (*)
As lembranças.
Dois soldadinhos de chumbo, um com aquele chapéu enorme, o outro da guarda de honra da rainha. Restam numa caixa de sapatos.
Uma tarde de verão de 1989, a chuva que pára, o sol que aparece fugidio, é o tempo de bater o retrato, que fica lindo, ela de capa num pequeno jardim que nunca mais vou saber onde é, a luz dourada, o sorriso largo, os braços abertos, a foto de que mais gosto.
O sinal para o ônibus em Hyde Park, o passeio no andar de cima, comendo sanduíche e tomando coca-cola, sem destino, Abbey Road, nem sei se era mesmo, ficou sendo.
O jantar no restaurante indiano, a pimenta ardida, o chefe que virou amigo e nunca mais vi, o banho de banheira, as malas entupindo a salinha pequena a visita à BBC que eu ouvia em ondas curtas.
O barco com nome de uísque, a linha do tempo, da hora certa, dos dias certos.
E é tudo que guardo de bom desta cidade, porque depois, quando voltei, e foram muitas vezes, sempre a encontrei fria, opressiva, cor de chumbo.
Nunca mais morri de amores por ela, fui-me distanciando, porque acho que nunca fui capaz de vê-la como o bardo que ao cruzar suas ruas sem medo, notar o verde de sua grama, o azul de seus olhos, o cinza do seu céu, a dor e a felicidade silenciosas de sua gente, disso tudo tirou versos e fez música.
Então a sangram, não mais será possível andar por ela sozinho sem sentir medo, e a vida vai aos poucos roubando nossa inocência e enterrando meus soldadinhos de chumbo e minha foto dourada.
Na madrugada fria rodo por ela, aqui e ali uma sirene, lá embaixo ainda há fumaça, destroços e carne, mas como só sei, e não vejo, vejo sim como ainda é bela aqui em cima, cruzando o rio e acertando o relógio, e como as madrugadas são sempre silenciosas é possível olhar para ela com outros olhos, o cinza desaparece, as luzes amarelas lhe dão uma estranha tonalidade, pequenos sóis que só surgem de noite e iluminam pouco, o bastante para sentir ternura.
Na desgraça a ternura volta, comigo é assim, mas é algo que não dá para explicar. Não é pena, não é dó, não é compaixão, não é nada disso, é apenas ternura por um lugar onde há séculos tirei uma fotografia e subi no segundo andar do ônibus vermelho, magrelo, cambaleante e divertido, barulhento e encardido, eu e o ônibus.Londres, Londres, não somos mais os mesmos.
(*) Flavio Gomes, jornalista de F-1. Texto extraído de Grande Prêmio.
sábado, junho 25, 2005
Conto de pensamentos desconexos (*)
Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.
O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.
A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazia, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.
Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.
Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?
O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatife em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.
O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.
Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.
(*) Um conto de alguns meses atrás que estava perdido por aqui.
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