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quarta-feira, agosto 28, 2002
Palestra sobre a ALCA explica os reais interesses dos EUA na formação do bloco de livre comércio na América
No último dia 23 foi realizado na Universidade Cruzeiro do Sul uma reunião para discutir a ALCA (Associação de Livre Comércio nas Américas) e suas conseqüências no Brasil e nos outros países da América Latina. Para esta palestra comandado pelo professor Luís Antônio da própria Universidade, compareceu o Doutor em Ciências Sociais da PUC Flávio Ribeiro, o Sociólogo e integrante do Movimento Sem Terra Marcelo, Miro Borges, jornalista, escritor e sindicalista, e também o senhor Luís Fernando Garson, que escreve para a Revista Caros Amigos.
O primeiro a palestrar foi Miro Borges que deu um quadro geral dos motivos para os Estados Unidos quererem que os países latino-americanos assinem esse acordo que na verdade está sendo imposto, segundo ele, a todos os países para dar seguimento ao processo de expansão política-econômica e militar que os norte-americanos pretendem para toda a América.
Ainda segundo Borges, esse tratado da ALCA ganha força no início da década de 90, com a queda do Leste Europeu, o crescimento econômico do Japão e da Europa Ocidental. Com isso os EUA encontraram uma força de manter sua hegemonia perante o mundo: criando o comércio livre nas Américas para o país se fortificar e crescer economicamente a ponto de ninguém Ter como competir com eles. O primeiro passo para esse projeto foi o Nafta, que nada mais é do que a ALCA da América do Norte, acordo de livre comércio assinado em 1994 pelo Canadá e México. No mesmo ano foi aprovada a constituição da ALCA, em uma reunião em que estavam quase todos os presidentes das nações da América, menos Cuba.
Esta é uma condição, na visão de Borges, insustentável, pegando como exemplo a Comunidade Européia, que formou-se depois de 50 anos de grandes discussões sobre o assunto, e mesmo hoje não se tem uma posição única a respeita do Euro e da União Européia, e os Estados Unidos querem implantar a ALCA em 10 anos, coisa que é impossível de ser feita em tão pouco tempo.
Em seguida o Sociólogo Marcelo começou sua palestra colocando os grandes males que a ALCA trará na nossa vida cotidiana: pobreza, desigualdade social, desemprego e desestabilidade econômica, até porque, como que os países da América Latina vão concorrer com uma economia norte-americana que possui 78% do PIB de toda a América? Ele ainda sustenta que a ALCA não é acordo e sim uma imposição dos EUA para controlar ter controle total sobre as nações americanas. A única forma de se fazer uma integração econômica desse porte, seria apenas entre a América Latina, pois tiveram histórias parecidas, e tem uma economia semelhante.
Para Marcelo, esse interesse todo norte-americano é de concretizar seu domínio perante o Brasil e alguns países que ainda possuem alguma riqueza própria, como o caso da Amazônia na América do Sul, tanto que os EUA estão quase conseguindo a base militar de Alcântara, que fica no Maranhão, com o discurso de que lá eles poderão lançar foguetes com economia, já que pela posição geográfica, a redução de combustível seria de 30%. Mas o que se sabe é que os EUA já possuem bases militares em quase toda a volta da Amazônia (entenda-se Bolívia, Colômbia e Venezuela), faltando apenas controlar no Brasil para colocar em prática seu domínio e exploração do local de maior biodiversidade do planeta.
O terceiro palestrante Luís Fernando Garson que veio com um discurso de político, porém, criticando ferozmente a ALCA e seus reais interesses, alertando para a imprensa que não divulga nada em relação a este acontecimento, sem noticiar, muito menos conscientizar os cidadãos dos perigos que corremos, em um servilismo ao Estado que chega as raias do ridículo.
Garson colocou que a ALCA romperia com os laços internos dos países, as integrações vizinhas de cidade para cidade, acabaria mutilando muitos países, miseravelmente desiguais e sugados pelos EUA que impuseram, através do capitalismo, um processo de individualismo e consumismo desenfreado nas pessoas, fazendo com que as mesmas sejam controladas pelo dinheiro e produtos, num processo de dominação designado, segundo Garson, a “colonização do desejo”, e que ocasionaria uma ditadura mental que acaba desunindo as pessoas e colocando a população em total estado de desinteresse político e social, pensando apenas em si próprias e no capital.
O quarto palestrante, o Doutor Flávio Ribeiro fechou o dia colocando que no atual estado que vivemos de insegurança plena, enfrentando operações de guerra cotidiana para sair de casa e conseguir viver a vida, deixamos de nos atentar as questões de grande importância para o nosso futuro, como a ALCA. Ele citou o caso do México que obteve crescimento do PIB, após o acordo do Nafta, mas obteve um crescimento do índice de pobreza, de 49% em 1994, para 75% nesse ano. Portanto, esse crescimento econômico centralizou-se nas mãos dos mais poderosos, aumentando o número de pobres e piorando a qualidade de vida de todos.
Um caso citado por Miro Borges e que cabe aqui é a proibição da venda da gasolina Esso no Canadá. Essa empresa foi proibida, através de uma lei, de ser vendida no Canadá por conter toxinas que prejudicam as crianças. A Esso recorreu ao tribunal do Nafta e acontecerem três coisas: o Canadá teve que pedir desculpas publicamente, pagar uma alta multa e revogar a sua lei, deixando a Esso vender sua gasolina com toxinas naquele país. Isso é apenas uma amostra no que pode acontecer com o Brasil, ao assinar esse acordo com os Estados Unidos, a perda total de sua soberania, porque todos os casos referentes ao acordo serão julgados pela ALCA que terá sua sede nos EUA, dando totais vantagens àquele país de impor suas pretensões e se fortalecer às custas dos países mais pobres da América.
Tudo isso conclui que a palestra acabou sendo muito importante para os alunos daquela Universidade tomarem consciência dos riscos que a concretização da ALCA trarão a todos os países latino-americanos e também que podemos tomar algumas posições contra isso, participando mais dos processos políticos e procurando sempre estar informado por alguma imprensa alternativa, pois os grandes veículos estão pactados com o governo, deixando de citar certas atrocidades que o governo anda fazendo, como a assinatura desse acordo sem passar por plebiscito ou pelo Congresso Nacional, uma quase ditadura imposta pelos norte-americanos como desculpa para começar a funcionar a ALCA. E se isso realmente acontecer, será a destruição dos países latino-americanos.
PS: em breve publicarei um texto opinativo sobre a ALCA em um site que vai elucidar melhor alguns aspectos específicos da trágica conseqüência que esse acordo vai trazer ao Brasil. Podem ficar tranqüilos que eu avisarei em qual site estará e quando isso acontecer, caso não der certo, publico aqui mesmo no blog.
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