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quinta-feira, outubro 31, 2002
A esquerda no Brasil não será mais a mesma
Agora é definitivo. Após um segundo turno morno, sem maiores embates, a não ser o desespero de José Serra em tentar conseguir votos, e a discrição de Lula para não comprometer sua vitória assegurada, o Brasil terá o primeiro presidente “operário” do maior partido de esquerda do país.
O candidato pelo Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio “Lula” da Silva obteve a maior votação de um presidente no Brasil, perdendo por poucos milhões de votos do recorde norte-americano de Ronald Reagan na década de 80. Após expurgar quase toda a ala radical do PT durante a década de 90, colocando a ala “moderada” ao comando, os petistas, liderados por José Dirceu fizeram alianças de centro com o Partido Liberal (PL) e com alguns setores do PMDB, como Quércia em São Paulo. Tudo isso para poder consolidar o novo projeto petista de governar, mais aberto, com parcas lembranças socialistas.
Essa mudança radical que se deu ao longo dos 22 anos de história do partido foi o fator mais que determinante para ascender Lula ao Planalto, desbancando oito anos de governo neoliberal do PSDB. Os discursos do partido propõem uma mudança para o país, alavancada pelo tão falado “pacto social”, com empresários, sindicalistas, e pessoas dos mais variados setores da sociedade. O problema é que esse pacto na verdade vem com outro nome, também usado pelo presidente eleito, que é “União Nacional”, e significa fazer alianças com a maior parte dos partidos possíveis, um conceito muito usado por políticos da Europa e dos EUA. Isso na verdade comprova a guinada total do partido a uma coligação centro-esquerda, denominadas por eles como “Brasil quer Mudança”, mas que na verdade provocará poucas alterações no quadro atual do país. Exemplo disso é a tão propagada mudança no modelo econômico por Lula, sem especificar o quê e como. E, do outro lado da corda, o futuro presidente diz sim ao mercado e ao FMI (Fundo Monetário Internacional), afirmando que vai honrar os compromissos, seguindo tudo que já foi planejado pelo governo FHC.
Essa coligação centro-esquerda deverá se mostrar pouco eficaz na prática de governar, pois as alianças no Congresso terão que ser muito amplas, podendo desfigurar muitos dos planos assistencialistas idealizados pelo PT de Lula. Sendo que, na verdade, esses programas provocam pouco alívio para grande parte da população que vive desempregada, no maior índice de miseráveis da história do país. Lula e sua “esquerda” ganharam, mas isso significa muito pouco para os eleitores que votaram nele pedindo mudança das atitudes servis e destrutivas em relação ao nosso país, que os governantes conduziram por toda a nossa história, sempre dominada pelas elites, em que as classes menos favorecidas tem pouca, ou quase nenhuma condição de se levantarem, sem constituir alianças duvidosas como Lula fez para vencer o pleito. A esquerda venceu, agora resta saber se ao longo desses quatro anos de mandato petista, essa esquerda se comportará como tal.
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