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quarta-feira, outubro 09, 2002
A Música e a Poesia como influentes em nossos estados de ânimo
Platão afirmara em A República que a Poesia e a Música exercem grande influência sobre os nossos estados de ânimo, afetando, positiva ou negativamente, o comportamento moral dos homens. Ao contrário da Pintura e da Escultura que estavam, na visão do filósofo, muito abaixo da verdadeira Beleza e inferior em comparação com a Ciência, pois o material produzido é inconsistente e ilusório. Esse conceito foi plenamente aceito e difundido à época (por volta de III a. C.), intensificando o interesse intelectual pela Arte, e também sobre a importância filosófica e teológica da idéia de Beleza.
Mas será que esse conceito ainda sobrevive em nossa arte contemporânea? Poderíamos contestar as afirmações platônicas no que compete a Pintura e a Escultura, pois o movimento artístico dessas ramificações nos mostraram, pela história, que as mesmas sempre tiveram influência na vida dos artistas e dos que apreciam obras de arte, causando, em muitos, essa “variação nos estados de ânimo”, que Platão falou no caso da Música e da Poesia. Mas será que para essas formas de arte citadas por último causariam outras situações ou Platão acertara em suas convicções?
A uma primeira análise, todos irão concordar que isso verdadeiramente ocorre, pois quando ouvimos uma determinada música, ela atinge a nossa mente e coração, remetendo-nos a algum tipo de felicidade ou tristeza exacerbada. Só que isso depende muito do momento em que a pessoa ouve uma música ou lê alguma poesia. Exemplo: Se eu estiver triste por estar vivendo um final de relacionamento, e ouvir uma música triste, melancólica, que remeta a situações vividas com a pessoa em questão, certamente vai mexer com meu estado de ânimo, me deixando deprimido, inclusive. Mas talvez essa catarse já exista dentro de mim, a música apenas contribui para eu expor meus sentimentos de tristeza. Cabe discutir, portanto, essa questão: A música e a poesia exercem essa influência em nosso estado de ânimo, ou isso ocorre apenas por estarmos já predispostos a essa influência?
Para tentar chegar a essa resposta, primeiro temos que analisar a seguinte coisa: Segundo Nunes (1991), quando ouvimos uma determinada música e choramos não é porque acolhemos a obras através do sentimento e sim por estarmos fazendo uma catarse de nossas emoções. Ele diz mais: “no sentimento, ao contrário, a emoção é despida de seu conteúdo material e elevada a um outro estado: retirado o peso da paixão, permanecem o movimento e as oscilações do sentir em comunhão com o objeto” (NUNES, 1991, p. 388). Isso nos mostra que quando nós temos acesso a alguma obra de arte como a música ou poesia, não estamos “sentindo” a obra por si só, e sim estamos externando nossas emoções, sem trabalhar como sentimento próprio da obra em si. Portanto, sentir a obra de arte é percebê-la em outro nível, não apenas voltado a nossas experiências e sim ao que o artista quis passar com uma música, uma tela, uma escultura ou mesmo uma poesia.
A afirmação de Platão portanto é verdadeira? Por um lado sim, pois, retomando o exemplo, se eu não tivesse previamente triste, eu não começaria a chorar por ouvir uma música. Talvez se eu tivesse plenamente alegre e ouvisse a mesma música, não me afetasse nem um pouco. Mas por um outro lado, se eu tivesse em um estado emocional positivo e ouvisse essa música triste, provavelmente eu não viveria nenhuma variação em meu estado de ânimo, justamente por não estar predisposto a ficar dessa maneira. Por isso, a variação no estado de ânimo se dá quando já estamos com sentimentos parecidos com o que ouvimos e vemos pretende expressar, e que acaba nos lembrando das situações que nos fazem ou fizeram mal ou bem em nossa vida. Isso propõe uma variação no conceito de Platão, pois não há como estipular que todas as pessoas sintam a mesma coisa quando ouvirem uma música ou lerem algum poema, mas também não pode afirmar que alguém altere seu estado emocional com essa música, isso varia de pessoa para pessoa.
Referência Bibliográfica
NUNES, B. Introdução a Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 1991.
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