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quinta-feira, outubro 17, 2002
Uma noite de heróis e guerreiros no Morumbi
Resolvi fazer algo pouco formal hoje. É, isso mesmo, estou definitivamente cansado de seguir padrões, de quebrar a cabeça para achar uma melhor maneira de escrever, na busca incessante e doente pela perfeição. Eu, decididamente, não sou assim.
Mas fiquem tranqüilos, o texto não será tão inútil assim. Apenas estou sem vontade de escrever páginas e páginas de algo dentro do contexto, com Português elogioso, mas sem nenhum alma, emoção ou diversão. Eu cheguei a conclusão que se algo a mim vira responsabilidade, cobrança e não alegria, simplesmente eu não consigo fazer. É, talvez eu tenha chegado a meu denominador comum, encontrei minha resposta. Agora, se alguém tiver a solução disso, favor ligar-me no hospício mais próximo, pois eu estarei lá, à espera de alguma salvação.
Então, resolvi hoje apenas citar o que vejo no jornal de hoje, coisas estranhas ou até mesmo espetaculares. Mas o primeiro caso que vou falar, nem precisaria de nenhuma folha impressa. Aliás, a folha impressa não capta, muito menos transmite a emoção que o som ou a imagem conseguem. Uma página não evidencia os sentidos, a agonia, a alegria, o grito, a lágrima, os desejos e frustrações, de uma partida de futebol. E ontem foi exatamente isso que me ocorreu. São Paulo e Santos. Grande clássico no Morumbi. Depois do tricolor tomar um verdadeiro baile do Santos na primeira etapa e levar aos vestiários um empate, a garra são-paulina (isso mesmo, não é só corintiano que possui isso, muito pelo contrário) se fez presente na volta ao campo de jogo.
Depois de algumas boas jogadas, Kaká aparece em magnífica tabela com Fábio Simplício e é derrubado pelo goleiro Júlio Sérgio: pênalti. Eu, em meio a inexpressiva aula de Inglês Instrumental, vibrava com o gol de Luis Fabiano, abrindo o placar. Logo após, arrancada esplêndida de Kaká, passe magistral para Reinaldo, que tocou no cantinho, sem chances ao goleiro. A bola ainda bateu na trave, antes de cair orgulhosa na rede. Sim, a bola vivia uma noite de gala, histórica para o futebol brasileiro. A seguir, Paulo Almeida caiu na “onda” de Kaká e deu uma cotovelada no menino de ouro do Morumbi, sendo expulso com justiça.
Porém, nos clássicos aquele ditado de que “o jogo só acaba quando o juiz apita” são mais significativos. E o Santos, após um baque natural por causa dos gols sofridos, retomou arte do primeiro tempo. Com jogadas maravilhosas de Robinho, já que Diego passara a ser melhor marcado por Maldonado, e também com os avanços precisos de Léo, os santistas diminuíram o placar com um golaço de Robert. Começara o calvário, meu e de todos os torcedores daquela quarta fantástica. Enquanto isso, mais uma vez a bola sorria ao encaminhar-se para as redes. Já a torcida se misturava em emoções múltiplas, mas o mais emocionante e eletrizante, ainda estaria por vir.
Amelli foi expulso um minuto após o gol santista, desestabilizando o tricolor que passou a ser sufocado em sua área. Nisso, uma linda garota adentra a Topic, senta ao meu lado e eu esqueço por um segundo o jogo. Mas que nada, não tinha como tirar a alma daquele estádio. Passados 30 minutos, Kaká comete pênalti em cima de Léo e é expulso. O tempo pára no estádio Cícero Pompeu de Toledo. E pára também aos que estavam em frente a rádios e com fones de ouvido, como eu, grudados nos ouvidos. Na cobrança, Rogério Ceni se adianta até o meio da pequena área e defende a cobrança mal feita por Diego. O árbitro da partida não repara, mas o bandeirinha invalida a cobrança, justamente por Rogério ter se adiantado. Eu, já na lotação, esperando enchê-la para partir para casa, não conseguia me conter e dava murros na minha mala, e queria gritar, mas não podia. O juiz manda voltar a cobrança. Diego marca e pisoteia em cima do símbolo do São Paulo. Confusão armada. Simplício, são-paulino autêntico, foi tirar satisfações do ocorrido e quase o jogo acaba ali. E era esse mesmo meu pensamento, mas mais na iminência do São Paulo tomar um terceiro do gol, do que o fraco árbitro encerrar a partida por conta da briga generalizada. Nisso a perua já partira com o os estudantes querendo chegar em suas residências, e claro, reparando em mim, pois nessa altura do jogo eu não conseguia me conter. Murros na lataria do carro, coloquei minha cabeça pra fora do carro, olhando o céu, como que tentando acalmar o coração que não agüentava mais tanta emoção. Imagino quem estava no estádio. Quanto sofrimento!
Mas quando todos, como eu, esperavam a virada santista, os anjos tricolores Simplício e Reinaldo foram a frente, fizeram uma tabela fenomenal, e o atual rei do Morumbi (Reinaldo, claro!) é derrubado dentro da área. Mais um pênalti. Eu, totalmente descontrolado na perua, recebendo olhares assustados da garota a meu lado que me fizera esquecer por um segundo o jogo, soltei uma gargalhada alta, quase irônica, já que não podia descarregar os berros desejados. Volto ao jogo. Torcida quieta. Concentração absoluta. Fechei os olhos, enfiei os fones ainda mais no ouvido para tentar ouvir o máximo possível. Um momento religioso, rezas, energia positiva e gol. Sim, gol do São Paulo! Ricardinho batera com perfeição e fora comemorar também no símbolo, ajoelhado ao lado do lateral Gabriel. O narrador grita: “Ricardinho vai no símbolo, se ajoelha e vibra, como quem diz: ‘quem manda aqui é o São Paulo!’”. Confesso que não me contive, dei vários murros no alto, no carro, na bolsa, ria, quase chorando. Sim, a emoção era muito intensa. Imagino quem estava no estádio.
Mas o sufoco não terminara. Santos atacando, jogo prolongado até os 49, por conta das interrupções, e o Santos no ataque. Bola na área, Rogério tira, na sobra, quase gol praiano, desespero total nas arquibancadas e na lotação. Finalzinho de jogo, bola com o Santos, Robinho se joga na área, o juiz nada marca e o São Paulo sai com a bola. Nem precisa mais. É final de jogo. A torcida são-paulina comemora com toda a força e alegria. Jogadores se abraçam como se tivessem conquistado um título. E os santistas saem cabisbaixos, resignados em terem jogado melhor e que mereciam ter vencido. Eu apenas olhava aos céus e agradecia essa magnífica vitória. Cerrava os punhos, balançava-os e gritava por dentro, descarregando como podia aquela emoção pela vitória, que como Ricardinho disse: “As vezes jogar bem apenas não basta, temos que jogar o necessário. Jogamos o necessário e vencemos”.
Uma noite para ficar na história. Uma partida que vai ficar na memória de todos os torcedores, como eu, são-paulinos ou santistas. Realmente um dia de muitos heróis e guerreiros. Os heróis foram os jogadores e os guerreiros, sem nenhuma dúvida, foram e são os torcedores, tanto os que compareceram ao Morumbi, como aqueles torcedores de rádio, como eu.
Out of Control - Closing Time
É, nem imaginava que eu iria escrever tudo isso não. Vou deixar pra comentar o que vejo nos jornais outro dia. Ficou de bom tamanho, eu diria, exagerado, pois nem eu queria escrever tanto assim. Mas serviu para passar a verdadeira emoção da vida. Serviu para mostrar que um jogo de futebol que muitos dizem não mudar a vida da gente, pode sim mudar a vida sim, pode fazer muitas coisas, pode fazer tudo. E mostra outra coisa: que mesmo que eu transcreva cada palavra, cada detalhe do acontecimento de ontem, ou que eu fale ou se gravasse o ocorrido, não conseguiria passar toda a emoção, paixão, sentimento, vibração e energia que eu senti na noite de ontem. Portanto, não nos devamos nos preocupar tanto com a perfeição, pois a mesma é apenas um detalhe em nossa singular e efêmera existência.
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