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segunda-feira, dezembro 02, 2002
Artigo - Parte I
O NEOLIBERALISMO NO MUNDO
O Neoliberalismo tentou durante todo o século XX impor seus conceitos, mas teve nos Estados de “bem estar” social um
inimigo forte e duradouro
O século XX foi marcado por mudanças profundas e decisivas no plano econômico. Após um período de ascensão e fracasso do capitalismo antigo, durante a década de 70 ocorreu o avanço de um novo tipo de capitalismo. Essa “novidade”, que não é tão nova assim, tinha em seus planos uma economia globalizada, fundamentada em uma política neoliberal, e que no final do século chegou ao Brasil, logo após o fim da ditadura, com a redemocratização do país. Porém, quem implantou mais avassaladoramente essa política foi o atual presidente Fernando Henrique Cardoso, sustentado por algumas colunas como o controle da inflação e a estabilidade econômica, que levou as atuais conseqüências nos dias de hoje, na qual analisaremos no decorrer do texto. Mas inicialmente, discorreremos sobre o caminho percorrido pelo neoliberalismo no mundo todo, até chegar na América Latina, mais especificamente no Brasil.
O mundo atravessava momentos de reestruturação após a Segunda Guerra Mundial, principalmente na Europa. E lá, mais precisamente na Suíça, surge um movimento liderado por Fredrich Von Hayek, que defendia uma nova forma de governo, criticando veementemente as limitações dos mecanismos de mercado por parte do Estado. O movimento é conhecido como neoliberalismo e possui em O Caminho da Servidão (1944), escrito por Hayek, a base fundamental do pensamento neoliberal.
Hayek: o precursor do neoliberalismo
O problema é que o neoliberalismo não criou eco nas principais nações do mundo. Isso porque na Europa começou a ser aplicado políticas de bem estar social, arquitetadas pelo economista Jonh Keynes, que viria a ser base teórica para a implantação da política do New Deal norte-americano. Enquanto as reuniões com os insatisfeitos neoliberais aconteciam freqüentemente em Mont Pèlerin (Suíça), e seus adeptos lutavam e acreditavam cada vez mais neste modelo, este conceito acabou caindo em um período de ostracismo. Foi um período de sucesso dos chamados governos social-democratas, que proporcionaram grande enriquecimento e melhoria significativa na qualidade de vida da população.
Essa época ficou conhecida como a Idade do Ouro, pois esses países obtiveram bom crescimento ao adequar medidas que beneficiavam o cidadão, sem deixar de lado o capital e o intuito final que sempre foi o lucro. Isso não quer dizer que essas políticas keynesianas eram “a fada madrinha” da classe trabalhadora. Elas apenas amenizavam as desigualdades e traziam bons benefícios, porém, sem levar contentamento a todas as classes sociais, principalmente a uma parte da classe mais rica. Mas enquanto os países cresciam e os investimentos e retornos se multiplicavam, essas práticas de “bem estar” puderam ser mantidas. Esse modelo teve um longo e bom período de duração, mas que acabou, como todos os outros, em uma grave crise econômica.
O fim do chamado welfare state (estado de bem estar) ocorreu por volta de 1972-73 por conta da crise do petróleo, que levou a primeira grande tormenta do modelo capitalista pós-guerra. Essa derrocada se deu por conta da combinação de baixas taxas de crescimento com o aumento da inflação, colocando os países em uma grande recessão. Esse deslize era o que os neoliberais precisavam para trazer a tona novamente o pensamento de uma política mercadológica mais “livre”, sem a intervenção do lobo mau, na visão deles: o Estado.
Mas o fator decisivo que desencadeou o neoliberalismo no mundo foi a vitória na Europa e na América do Norte de governos de coalizão direita-conservadora, com base teórica totalmente voltada a “liberdade” pregada por Hayek. Esse quadro teve início com a eleição de Margaret Thatcher ao governo britânico, sendo implantadas de forma mais avassaladora as propostas neoliberais. Isso aconteceu com a privatização de todas as empresas de serviços públicos, a desregulação dos mercados, bem como com a quase ditatorial briga com os sindicatos, tirando quase todos os benefícios adquiridos por lei pelos trabalhadores, e que, na visão dos adeptos a teoria, entrava o crescimento do país, pois o dinheiro usado para benefícios deixa de ser aplicado no mercado, imobilizando a economia local. Estados Unidos em 1980, foram importantes para o início da consolidação do modelo neoliberal nas principais potências do mundo. Não só a eleição de Thatcher foi importante, como a derrota da social liberal por Helmut Khol na Alemanha, em 1982 e de Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos em 1980, foram importantes para o início da consolidação do modelo neoliberal nas principais potências do mundo.
Tatcher: vitória decisiva para a virada neoliberal
A entrada deste modelo de governo na América Latina se deu a partir de 1973, mais precisamente no regime militar chileno, governado por Pinochet. O Chile foi utilizado como uma espécie de laboratório para a implantação dessa corrente. Mas foi em meados dos anos 80 que esse fenômeno se generalizou no continente. Segundo José Luis Fiori em Moedeiros Falsos tudo ocorreu em silêncio, em meio a renegociação das dívidas externas sul-americanas, hora em que a comunidade financeira internacional apresentou aos devedores as suas novas condições: um conjunto de políticas e reformas que repetiam o que foi proposto por Hayek, na década de 40.O mais interessante de perceber isso tudo, é que essa alteração na América do Sul não se deu por imposição, nem por conspiração. De acordo ainda com Fiori, essa “metamorfose” nas políticas econômicas ocorreu por uma verdadeira revolução cultural entre os acadêmicos e intelectuais hemisfério sul. O aspecto original dos sul-americanos foi que o ataque ao modelo desenvolvimentista pelos sul americanos foi conduzido pelas mesmas forças que o sustentaram autoritariamente e que dele se beneficiaram durante meio século. Isso quer dizer que os mesmos que voltaram-se contra o modelo político atual, são os mesmos que foram a favor dele durante décadas passadas.
(Segunda parte do texto será exibida na semana que vem)
Mini Biografia do Autor de Moedeiros Falsos
José Luís Fiori é um dos mais brilhantes economistas da nova geração brasileira. Exilado no Chile aos 19 anos, lá estudou economia e sociologia. Formou-se Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e hoje é Professor Titular em Economia Política Internacional nas Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro (URFJ e UERJ).
Alguns livros publicados por Fiori:
Os Moedeiros Falsos (Editora Vozes)
Polarização Mundial e Crescimento (Editora Vozes)
Em busca do Dissenso Perdido (INSight Editorial)
O Vôo da Coruja: Uma leitura não liberal da crise do estado
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