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sábado, março 15, 2003

Fluxo de Informação no Mundo – do NOMIC à Intervenção do Neoliberalismo

Com a ajuda da Unesco, várias nações “menores” propuseram uma “nova ordem” na comunicação mundial, mas tropeçaram em discussões ideológicas e nos países abastados, que não tinham interesse em modificar o fluxo da informação


A Unesco bem que tentou mudanças sa área comunicacional, mas sucumbiu ao fator econômico EUA

A partir da década de 60, com a iniciativa da Unesco – organização vinculada as Nações Unidas, direcionada a questões culturais, educacionais e ciência – em promover a discussão sobre a situação da comunicação no mundo, surge o conceito de Políticas Nacionais de Comunicação. Esse conceito – que originou o termo Nova Ordem Mundial de Informação e Comunicação (NOMIC) – emerge como uma alternativa ao livre-fluxo de informação que ocorria na época, seguindo a lógica capitalista de livre-mercado, o que acabava gerando a “subinformação ao excluir grande parte da população mundial” (LOPES, p. 03, 2002).

Os debates se voltavam para o campo da “democratização” da informação, não apenas no acesso a mesma, mas no âmbito da veiculação dessa informação. Segundo a Unesco, o Estado deveria intervir direta e indiretamente nos meios de comunicação, “fosse pela exploração de meios estatais de comunicação, fosse por regulamentos e normas diversas que ajustassem os eventuais meios privados aos programas, objetivos e metas que compunham o planejamento governamental para toda a sociedade” (ZYLBERBERG, J., DEMERS, F., p. 29, 1992). O pensamento era de que essa nova situação na comunicação deveria ser pensada e realizada principalmente pelos países do Terceiro Mundo, invertendo o fluxo de informação, que sempre partiu dos países ricos para os pobres. Além do que, muitos países do Terceiro Mundo, bem como os não-alinhados com o modelo liberal da época eram filiados à Unesco.

Acontece que, como vivíamos a Guerra Fria e a bipolarização das discussões, tanto políticas, quanto econômicas e mais ainda ideológicas, esse debate sobre a comunicação sofreu sérios problemas na definição de algum consenso. Tanto que a Unesco, em 1976, criou a Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas da Comunicação, composta por especialistas em comunicação para uma discussão mais eficaz deste tema.

Porém, mais uma vez o resultado foi disperso e duvidoso. O que resultou dessa comissão foi o relatório MacBride – nome dado por conta do presidente da comissão ser o jornalista e jurista irlandês, Sean MacBride –, que procurou trazer uma solução para tal problemática. Muitos colocam que esse trabalho foi de muita valia no aspecto de por à baila novas perspectivas e situações que estão fora da discussão comum sobre este tema. Porém, outros questionaram seu resultado prático, inclusive os atores neoliberais que, desde o fim da década de 70, engatilhavam uma política que iria devastar a América Latina, e em menor grau o mundo, nas duas décadas seguintes.

A partir dos anos 80, Ronald Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra, com métodos de governo neoliberal conseguiam eleger-se em seus respectivos países. A forte influência dessas duas nações levou o debate dessas discussões sobre a comunicação e outros aspectos progressistas e esquerdistas a um grande esvaziamento. Como esses governos neoliberais faziam frente para definhar toda e qualquer tentativa de manutenção do Estado de bem-estar social, a questão sobre o NOMIC e as políticas nacionais de comunicação, que exercitavam uma forma mais igualitária, crítica e justa, não poderiam deixar de ser eliminadas.

Reagan avistava naqueles discursos uma visão de esquerda, com vistas mais ao controle do Estado em todas as ações – não que no neoliberalismo não exista controle do Estado, é justamente o contrário, mas isso ocorre de outra forma. Com isso, ele tratou de cortar o capital que era cedido pelos Estados Unidos e seus aliados à Unesco, o que deixou a instituição em seríssimas dificuldades financeiras, tendo que encerrar várias pesquisas e projetos. Mais tarde, os EUA, juntamente com Grã-Bretanha e Japão se retiraram da instituição, até porque, na visão do governo Reagan, esta atrapalhava o projeto de imposição do modelo neoliberal no mundo. E isso foi crucial para o fim da participação ativa da Unesco no cenário político-discursivo internacional.

E com isso as discussões em torno de uma “nova ordem” na área da comunicação foram praticamente esquecidas. A não ser por alguns intelectuais que ainda persistem em seus restritos setores a discutir, sem resultado eficaz algum, os rumos e as conseqüências do atual quadro do fluxo de informação no mundo todo, principalmente nos países mais pobres.

Fonte: http://www.unb.br/fac/publicacoes/murilo/Cap03.pdf - Jacques Zylberberg e François Demérs (Orgs.)
www. cebela.org.br/atualidade-4.htm - Sonia Aguiar Lopes.
posted by Unknown / 3/15/2003 10:10:00 PM

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