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domingo, março 09, 2003
Juros Altos Encurralam o Governo
Com os juros na estratosfera e sem possibilidade de melhoria, Lula recorre a ala conservadora da política brasileira para tentar salvar a economia de um maior desastre
“Me dá desespero supor que
a política macroeconômica
será igual (à do governo anterior)”
Com essa frase o Ministro da Fazenda Antônio Palocci reafirma seu compromisso de trazer a tão propagada mudança na economia e nos rumos do país. Mas o que se vê na prática é uma história bem diferente do discurso expresso na grande imprensa.
O Ministro fala em manter a taxa básica de juros nos 26,5%, algo já muito alto para a população brasileira. O argumento é de que somente assim será possível controlar o aumento da inflação, que inclusive teve revista sua meta após negociações com o FMI na semana passada, aumentando a “recomendação” da instituição internacional para “toleráveis” 11,5%. Acontece que essa taxa de juros entrava toda a economia, não vislumbrando possibilidade da mesma evoluir e sair dessa longa estagnação que se encontra. É uma ciranda viciosa que não tem fim e pouco se faz para sair dela. E as atitudes do ministro Palocci não mudam em nada das pragmáticas medidas do governo anterior, chegando ao escárnio de dizerem que o ministro atual é irmão siamês de Pedro Malan, o que causa ojeriza ao atual ministro. Tanto que o próprio Palocci muda agora o foco, nem considerando mais tão importante o aumento da inflação. O medo agora é o da indexação, que certamente, segundo o ministro, traria uma grave recessão ao país.
Isso tudo leva ao cúmulo de nem o presidente Lula suportar mais essa situação e convocar políticos mais conservadores para “ajudá-lo” a encontrar alguma saída para este impasse. Nomes como Delfim Netto e Bresser Pereira (ministros durante a ditadura militar) circulam pela imprensa a questionar e dar palpites no governo. O desespero é tamanho que já iniciaram os rumores de que uma reforma ministerial, trazendo nomes do PSDB e PMDB começa a ser aventada, para dar mais tranqüilidade ao capital estrangeiro e aos mercados internos, gerando convulsões entre algumas correntes petistas. Mas segundo o presidente, o objetivo é de combater os juros astronômicos. É preciso saber até que ponto os atores conservadores encaram esse dilema petista. Até porque, em oito anos de governo tucano, por exemplo, a situação chegou nesse caos insustentável em que o PT assumiu o governo, qual contribuição essas pessoas poderiam dar ao governo atual?
Enquanto isso o FMI continua a propagar sua cartilha de que os juros só baixam quando o Estado fica menor e retendo mais suas arrecadações. É o mais claro discurso neoliberal, que prega o Estado mínimo, porém ativo no controle do dinheiro público, reduzindo cada vez mais os gastos, para poder pagar a dívida feitas com essas mesmas instituições financeiras. Quem condiciona isso é somente aquele que se beneficiará com tal prática, emperrando as economias periféricas, que estão totalmente atreladas a essas empresas e essa lógica do capital canibal.
Lula e sua equipe econômica estão encurralados. Palocci até reafirmou durante a semana “que não existe nem plano A, nem plano B, e sim o plano econômico do governo Lula que a população escolheu como o melhor”. Mas o que se vê são poucas alternativas em relação a mesmice da economia neoliberal que devassou o Brasil no governo FHC. Mesmo nessa tentativa inócua em chamar ex-ministros para contribuir com o PT, os resultados não serão eficazes sem uma mudança radical na condução da política econômica vigente.
Fonte: Revista Época.
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