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sábado, abril 05, 2003

Governo e Movimentos Sociais: uma complicada relação

Palestra na Unicsul deixa clara a posição desconfortante que os movimentos sociais vivem com a prefeitura sendo dirigida pelo PT, partido que sempre esteve unido a esses movimentos

Os movimentos sociais e o bairro São Miguel Paulista estiveram em questão na Unicsul – Universidade Cruzeiro do Sul. Na última sexta-feira de março (28/03) o professor “Toninho” do Curso de Comunicação Social da Universidade organizou uma palestra seguida de debate sobre esses movimentos e sua atuação junto ao governo. O evento contou com a presença do Subprefeito de São Miguel Adalberto Dias, Dalcides Neto, representante do Movimento de Moradia e Claudia Afonso do Movimento de Saúde, ambos da Zona Leste e dos alunos do terceiro ano do curso de Jornalismo da Unicsul.

A proposta era refletir os movimentos sociais a partir do livro Quando Os Novos Personagens Entraram Em Cena de Eder Sader, que relata esses movimentos emergidos na década de 70, indo contra a corrente aquiescida que estagnava o pensamento crítico e engajado naquela época. Além disso, relacionar os movimento sociais com a condução do governo atualmente, buscando a posição do representante do município quanto a essa situação. Outra sugestão foi o debate das melhorias na área dessa subprefeitura.

Mas o que se viu foi uma exibição de “façanhas” da prefeitura e um jogo de compadres dos representantes do movimento. O primeiro a se pronunciar foi o subprefeito de São Miguel Adalberto Dias. Acompanhado por um laptop, ele limitou-se a exibir seus projetos realizados, como obras no viaduto Marechal Tito, ou na área social, com a merenda escolar de qualidade nas escolas e a reurbanização das áreas irregulares. Dias defendeu os jovens com uma frase infeliz, justificando as atitudes dos que roubam com um motivo fútil: “Ele mete o cano em alguém porque precisa estar na moda”.

O subprefeito omitiu todo seu passado nos movimentos sociais, privando os que o assistiam de contar suas experiências e seus pensamentos. O mesmo limitou-se a dizer que os movimentos devem trabalhar em separado do governo, mas reivindicando sempre para o Estado realizar as obras necessárias para a sociedade. Quando na verdade não seria tão necessário vigiar o governo, já que sua função é exatamente essa.

Os representantes dos movimentos contaram um pouco da história de suas lutas, que já existem há mais de década. Claudia Afonso mostrou toda a luta do movimento em busca de trazer a saúde para a Zona Leste, resultando no fato dessa região ter a maior concentração de equipamentos hospitalares de São Paulo. Dalcides Neto colocou como surgiu o movimento, a partir da pouca atenção por parte das autoridades quanto a habitação.

O Movimento de Moradia defendeu uma política de habitação, sem mensurar qual, colocando a falta de moradia como um dos pontos cruciais para os problemas vividos pelo trabalhador. Como disse Neto, isso ocorre pelo baixo salário que impossibilita o pagamento do aluguel, impondo ao trabalhador morar embaixo da ponte. Para combater esse flagelo, o movimento de moradia organiza mutirões, unindo as pessoas para um bem comum, construindo suas próprias casas com ajuda do governo. Já a luta do movimento da saúde é por uma atuação mais firme do SUS – Sistema Único de Saúde – e também em trazer médicos para trabalharem na periferia.

Sobre a relação dos movimentos sociais com o governo, ambos limitaram-se a concordar com a posição do subprefeito. Para eles a ação dos movimentos tem que ser desvinculada do governo. Não foi aproveitada a presença do subprefeito para questionar suas realizações na habitação e na saúde, deixando claro o apoio ao governo. Tanto que, mesmo com os questionamentos dos alunos, pouco foi esclarecido, contrapondo aos “slides” apresentados no começo da palestra. Exemplo disso ocorreu quando a aluna Rita indagou o subprefeito sobre um córrego da região abandonado, segundo informações de um jornal local. O subprefeito se irritou, e em um discurso caloroso não respondeu a colocação da aluna.

O que foi presenciado na palestra coloca todos em situação desconfortante, deixando um aspecto bastante claro. Quando um partido de oposição chega ao poder, seus antigos aliados, que agora estão do lado oposto pois prosseguiram na luta por seus interesses, são mais tolerantes. Isso ajuda o a condução do governo, mas pode causar uma cumplicidade, pois não há uma posição crítica definida dos movimentos sociais sobre quem está no poder.
posted by Unknown / 4/05/2003 11:51:00 PM

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