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sábado, abril 12, 2003

Reflexão sobre a matriz discursiva das esquerdas revolucionárias no Brasil, seu papel nos movimentos sociais da década de 70 em São Paulo e os conflitos da esquerda na atualidade – a partir do estudo do capítulo Matrizes Discursivas do Livro Quando Novos Personagens Entraram Cena, de Eder Sader

A “esquerda revolucionária” surgiu em 1969, a partir das lutas ideológicas e posteriormente de rua, ocorridas em anos anteriores. A proposta se vinculava a fazer uma guerrilha armada por todo o Brasil, tanto em áreas urbanas (São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo), quanto rurais (sertão baiano, Araguaia). Seu apogeu se deu por volta de 1971, quando os enfrentamentos se intensificaram, logrando pequenos êxitos. Mas, nessa mesma época de seu ápice ocorreu sua ruína. Isso se deu porque, além da derrota para os militares (que massacraram muitos militantes opositores), surgiram muitas cisões dentro das próprias organizações. Além da crise do pensamento marxista no mundo todo que ocorria naquele momento, sendo derrubado posteriormente pelas teorias liberais, que dominariam nos anos 90 a política e economia do mundiais. Tudo isso desarticulou a esquerda no Brasil, deixando-a totalmente perdida e sem horizonte.

Com essa perspectiva obscura, os movimentos revolucionários mudaram de direção. Ao invés dos enfrentamentos, surge a idéia de trabalhar junto ao proletariado, criando neles uma consciência crítica e de luta, a partir dessa base dos sindicatos e grupos operários. Outra vertente procurou, como Eder Sader cita no livro, uma ligação com as organizações populares nos bairros da periferia paulistana. Uma das formas dessa conexão foi a educação popular, além de trabalhos com a comunidade da Igreja, ou mesmo de forma autônoma. Os métodos de Paulo Freire foram muito discutidos e aceitos, mas a busca pelo intelectual italiano Antonio Gramsci (autor de um estudo crítico sobre o marxismo) nas orientações educacionais foram muito mais profundas.

Os militantes tomaram esse caminho, sem deixar contudo, suas convicções para trás, como afirma Sader: “sem cancelarem estratégias revolucionárias elaboradas nos pequenos círculos conspirativos, esses grupos procuram enraizá-las nas massas, vinculando-se às ações coletivas de resistência, por diminutas que fossem. Pensavam que ao longo dessas experiências – e desde que orientados por suas ‘vanguardas’ – os trabalhadores fariam o aprendizado que os levaria à consciência de classe”. As “vanguardas” na qual refere-se Eder Sader é a própria matriz discursiva do pensamento esquerdista: o marxismo, representado por esses revolucionários que se infiltraram nesses grupos populares, os chamados “movimentos de massa”. Quer dizer, a fonte teórica estaria disponível sempre para os movimentos sociais populares beberem dela e constituírem sua consciência crítica, partindo para a sua luta. Essa foi a possibilidade mais perspicaz – e se enxergarmos os movimentos históricos futuros a mais duradoura – que uma ala política decadente e em crise conseguiu criar para escapar do sufocamento em que vivia, principalmente após sua derrocada e crise no início da década de 70.

O problema é que os embates ideológicos promovidos pelas “estratégias revolucionárias” traziam uma certa confusão, ofuscando o objetivo de reaglutinar os trabalhadores. Mas penso que isso se deu apenas no início, pois, conforme notaríamos melhor ainda no chamado “novo sindicalismo”, a influência, mesmo que em menor grau, dos pensamentos de esquerda, contribuiu para a construção da democracia no Brasil na década de 80. Essa participação se deu principalmente no âmbito da resistência e engajamento, culminando com a formação do maior partido de esquerda do país – o Partido dos Trabalhadores, criado em 1982 – ao englobar membros dos movimentos sindicais, da igreja e dos antigos movimentos revolucionários. Sem descartar sua fonte ideológica, representada por Karl Marx e principalmente por Gramsci em um segundo momento, essas organizações trouxeram todo o suporte necessário na reconstrução de uma esquerda combalida e em conflito.

A Esquerda nos Dias de Hoje

Aliás, conflito que chegou até os dias de hoje. Exemplo claro são os eternos “rachas” e discordâncias dentro do próprio PT. Na década de 90, alguns integrantes do PT foram expulsos ou saíram por vontade própria, e acabaram formando o Partido da Causa Operária (PCO) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). Fato mais atual ainda é a nação brasileira sendo dirigida pela primeira vez pelo PT. Os conflitos agora estão mais acentuados, a grande maioria dos dissidentes e alguns membros do próprio partido (denominados “radicais”) questionam o governo petista, considerando-o não mais como de esquerda. Hoje o PT vive um caos interior, chegando ao cúmulo de pessoas do meio político e intelectual o classificarem como um partido social democrata de centro (como o PSDB era, antes do neoliberalismo de FHC) com algumas discordâncias esquerdistas (que deverão ser expulsas assim que convier).

Isso mostra como são os partidos de esquerda, particularmente no Brasil. Eles estão em constante briga, sem definir questões práticas para resolver os problemas de nossa sociedade. E quando chegam ao poder, impõem políticas mais conservadora que os próprios “direitistas” conseguiriam fazer. Até por sua credibilidade perante o povo (é só ver o status que Lula tem hoje para a população), as medidas são mais fáceis de serem aceitas, em uma certa ilusão de que seria o melhor caminho. Recentemente a Espanha de Fernando Gonzaléz, e em grau diferenciado, (até porque na Inglaterra a esquerda não tem vez) Tony Blair e seu partido trabalhista, que instituíram o capital-canibal, e outros corroboram com esta tese. Cabe a esquerda se renovar e sair do campo intelectual, trazendo os debates para a população, colocando em prática seus pensamentos e resoluções, ao contrário de viver na utopia de um dia ocorrer uma revolução, para instituir algum sistema político de governo mais “justo”. As esquerdas revolucionárias aprenderam que ficar no campo do pensamento ou da radicalização não se constrói muita coisa, e sim o engajamento junto a população podem dar frutos mais consistente e objetivos.
posted by Unknown / 4/12/2003 02:10:00 PM

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