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domingo, maio 11, 2003

Músicas para Almas Aflitas

Como o estado de uma pessoa pode influenciar na obsessão de ouvir determinada música

Engraçado como às vezes nos prendemos a certas canções. Ficamos a ouvi-las intermitentemente, cinco, dez, vinte vezes, até estourar a paciência. Pode parecer algo meio tolo, mas na verdade reflete algum sentimento recôndito perturbando o coração e mente naquele momento/dia/semana.

Isso sempre acontece comigo quando me sinto deprimido. Pode parecer uma fuga interessante, ou, muito pelo contrário, talvez transpareça o desejo real de manter-se triste, curtindo efetivamente aquela dor. Hoje isso me afetou de um jeito totalmente especial, pois nada parecia estar tão distante quanto um instante triste como o que se deu neste frio domingo nublado em São Paulo. Havia tanta tarefa para fazer – e nem vale ficar falando delas agora –, que não me sentia vazio. Mas essas coisas definitivamente não pedem licença nem momento para acontecer.

Eu estava rebobinando a fita do filme Orange County – muito bom, por sinal, risadas garantidas em um tema bastante complexo, ponto para o escritor da história e o produtor da película – quando resolvi “zapear” na MTV. Estava tocando a música nova do Rodox, “De Costas Para o Mar”. Nada demais né? Exato. Eu já conhecia o som e curtia, pois enquanto a música corre na pauleira instrumental, o vocal do Rodolfo – agora Rodox – segue melódico, sendo uma canção trabalhada, muito longe das pedradas sonoras do Raimundos. Mas dessa vez a canção me tocara profundamente, tanto que eu pensei: “quando eu ligar o PC vou buscar a mp3 dessa música”.

Dito e feito. Lá fui eu à tarde “pescar” a melodia no Kazaa. Demorou um pouco a “baixar”, mas valeu a espera. Botei no Winamp para tocar e o que se sucedeu foi uma enxurrada de sensações que nenhuma droga traz ao ser humano. Mas vieram consigo dores múltiplas, perturbações, parecendo condicional ouvir a música e ser submetido a tantas emoções. Acontece que isso me deprimiu muito, mas ao mesmo tempo fez crescer um maior interesse na canção, fazendo com que eu a ouvisse umas cinco vezes seguidas, empurrando a ouvir mais e mais coisas do tipo – no caso, totalmente tristes – criando uma atenção maior para a letra, tanto que eu digitei a mesma no computador e até mandei para uma lista de “amigos”. Mas aí começava o jogo do São Paulo – que lástima –, e então eu acabei indo fingir que estava bem e tive alguns momentos de falsa-euforia.

Mas sabe quando tem algo lhe incomodando? O dia passa, as horas voam, mas sempre fica algo espezinhando o coração, deixando uma sensação terrível lá dentro. E não foi diferente. Ocorreu isso com outras músicas, como a versão do Oasis para “Cum On Feel the Noise”, que nem é melanólica. “Hey Now”, “Sad Song” e “Let’s All Make Believe” acompanharam o escrete de músicas-obsessão. As traduções são belíssimas e realmente dizem algo da confusão que se ressente dentro de mim. Mas não colocam sentido de direção, muito menos dizem a causa de toda essa situação.

Após a partida na televisão voltei a ficar em frente a tela do micro, busquei minha mp3 do Rodox, deixei no repeat e a ouvi mais cinco vezes. Mas chega né? Já cansou. No entanto, mesmo essa loucura em escutá-las passa, ficando um sentimento de vazio, preguiça e inércia inexplicáveis. Agora escuto Blurry do Puddle Of Mud, que mesmo sendo “musiquinha” de rádio, tento sido executada ad nauseam nas rádios paulistas, é fantástica, principalmente a versão acústica que tocava na rádio paulistana Brasil 2000. Vale a pena conferir.

Mas nunca, nunca aproveite seu estado depreciativo-pessimista para ouvir músicas melancólicas, a não ser que você tenha tendência a isso, pois se tiver essa queda a auto-piedade, não há ninguém para impedir-lhe desse suicídio emocional. Pelo menos é assim que vejo esse suplício, ao menos comigo funciona assim. Pois essas coisas vão matando a gente aos poucos, definhando, maltratando, até o dia que largarmos tudo de vez, tendo dois caminhos diferentes para esta possibilidade.

ps: Enquanto terminava este texto tocava “Carry us All”, também do Oasis. Só quem conhece a música sabe o quão ela é melancólica e triste.


posted by Unknown / 5/11/2003 07:18:00 PM

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