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sexta-feira, setembro 19, 2003

Chile, Socialismo e Ditadura

Trinta anos do golpe militar no Chile relembram as atrocidades cometidas pela direita e os erros de direcionamento da esquerda chilena


No último dia 11 de setembro fez 30 anos do golpe militar mais sangrento de toda a América Latina. Numa manhã de terça-feira de 1973 em Santiago, capital chilena, militares liderados pelo General Augusto Pinochet tomaram de assalto o palácio presidencial La Moneda, assassinando o então presidente Salvador Allende.

Allende – com sua base aliada formada pela Unidade Popular de esquerda – foi o primeiro presidente marxista eleito dentro dos marcos institucionais burgueses, já em sua quarta tentativa de eleger-se. A votação ocorreu em 04 de setembro de 1970, sendo eleito pela maioria simples de 36% dos votos. Nas eleições anteriores, o ex-senador perdera por poucos votos e muitas pressões da burguesia chilena, bem como da CIA estadunidense.

Desde o início o presidente chileno demonstrou seus assustadores objetivos, de acordo com a visão burguesa, claro: nacionalização da exploração mineira, principalmente do cobre, produto principal do mercado chileno à época. Além disso a expropriação de setores bancários e manufatureiros de fez presente de forma muito consistente, assim como a ampla reforma agrária, realizada logo no início do governo.

O problema de tudo isto está justamente na ingenuidade de crer que, seguindo as vias democráticas, a burguesia e a direita chilenas iriam ficar caladas diante de perdas gigantescas sofridas para a esquerda proletária. A luta de classes detectada por Marx a mais de 150 anos se acentuou no Chile àquela época. E assim ocorreram os boicotes no abastecimento e as greves dos caminhoneiros, principal meio de transporte no Chile, por conta de suas dimensões geográficas. Nesse momento, já havia intervenção externa dos Estados Unidos, inicialmente com o envio de verbas para financiar a greve em questão.

Allende, com sua tática da legalidade adotada para implantar o socialismo no país era visto com muito pesar pelo imperialismo estadunidense. O Projeto Condor da CIA tratava de minar qualquer tipo de resistência às ditaduras impostas na América Latina durante aquele período, e a “ameaça” chilena era vista pela Casa Branca como uma “nova Cuba”.

Mesmo assim, nas eleições legislativas realizadas no primeiro semestre de 1973, a Unidade Popular teve sua base aumentada, principalmente por parte dos setores populares do campo e da cidade, fato que desencadeou sua própria ruína. Isso porque a partir dali, a direita burguesa desistira definitivamente das vias institucionais para derrubar o governo marxista e tentaria a partir daquele momento a última e mais vil opção: o golpe.

Apesar do apoio popular e dos militares de baixa patente, Salvador Allende estava cada vez mais isolado. Sem apoio do Congresso, da Justiça e recebendo duras investidas dos oficiais do alto escalão, o presidente não conseguia mais saída para permanecer no comando do Chile: o golpe era inevitável. O valor do cobre despencava no mercado externo, devido a estimulantes pressões do governo Nixon. Jogavam-se também bombas em oleodutos e redes de água e eletricidade, com o objetivo de levar o país ao caos.

A partir disso a investida foi arquitetada pelos militares chilenos, com grande participação brasileira, representada na figura de Antônio Cândido da Câmara Canto, embaixador brasileiro no Chile, conhecido inclusive como “o 5º membro da Junta Militar chilena”, após ter sido deflagrado o golpe. Essa ativa contribuição do governo ditador do Brasil se deu não só com na idealização do levante, mas também através de dinheiro, remédios, comida, além de treinamento de tortura na Bolívia e presença in loco de oficiais em Santiago para averiguar e até mesmo torturar presos políticos.

Na primeira tentativa, em 29 de junho de 1973, o general constitucionalista Carlos Prats defendeu Allende, derrubando os golpistas, mas sendo obrigado a renunciar o cargo de Chefe do Exército, devido a pressões internas dos próprios militares. Em seu lugar foi levado ao posto um general que, até aquele momento, não tinha posição de destaque nas Forças Armadas, nem parecia estar do lado dos idealizadores do golpe, e por isso foi erguido ao cargo. Tratava-se do general Augusto Pinochet, que duas semanas depois comandaria a implantação da ditadura militar e a morte do presidente Salvador Allende.

Na manhã de 11 de setembro de 1973 as rádios e televisões foram tomadas. Tanques e aviões aplastaram terror nas ruas de Santiago, enquando Allende emitia seu último e emocionado pronunciamento como presidente do Chile: “Não renunciarei. Pagarei com a minha vida a lealdade do povo. O povo deve estar alerta e vigilante, deve defender os direitos de construir com seus esforços uma vida digna e melhor”. Em seguida o palácio La Moneda foi atacado e Allende morto. Estava decretada assim o início de uma das ditaduras mais atrozes de toda a história da América Latina.

Com aporte financeiro internacional, Pinochet permaneceu à frente do governo chileno durante dezessete anos, com um saldo invejável de sucesso terrorista: mais de 3 mil mortos e outros tantos desaparecidos. Ali instalou-se a primeira experiência neoliberal da história, uma espécie de laboratório para o que viria a seguir na Europa, Oceania e América Latina, consolidando o sistema econômico neoliberal pelo mundo.

Para isso, o general ditador também tomou medidas agressivas, ao abrir o mercado externo, devolvendo as empresas às grandes multinacionais e pagando-lhes polpudas compensações, devido as expropriações realizadas pela “ameaça vermelha”. Outra ação bastante eficaz do ponto de vista burguês foi a opressão e demonste das insitutições sindicais, em que a base do operariado, grande parte dele comunista, se mantinha.

O que fica de conclusão a todo o processo democrático que o Chile passou durante quarenta anos sem intervenção militar e com uma tentativa sabotada de implementação do socialismo está no desejo quase inocente de utilizar-se das instituições burguesas capitalistas para modificar o sistema político e por conseguinte, alterar o status quo vigente.

Crer nessas vias institucionais já indica a própria derrota, como ocorreu com a Unidade Popular. “O golpe significa que o capitalismo na democracia liberal não permite uma opção em relação aos sistemas sociais”, atesta Emir Sader. Somente a ruptura pode derrubar essa falsa democracia em que ao menor sinal de mudança o imperialismo ressurge como o paladino da liberdade para massacrar pessoas e restringir os direitos dos cidadãos.



posted by Unknown / 9/19/2003 04:20:00 PM

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