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quarta-feira, setembro 03, 2003

O Relato de Uma Guerra Sem Fim

Livro reúne reportagens documentando na História os sangrentos conflitos pela terra na região do Araguaia-Tocantins


O povo de um lado, fazendeiros do outro. Armas em punho, bandeiras erguidas, desejos e sonhos misturam-se entre corações e mentes. A eterna disputa por um pedaço de chão, em qual época for, será sempre a marca mais profunda de um Brasil desigual . É justamente o que retrata o livro O Massacre dos Posseiros (Editora Brasiliense), uma compilação de reportagens realizadas pelo jornalista Ricardo Kotscho para a Folha de São Paulo no inícioda década de 80, cobrindo os conflitos entre posseiros, latinfundiários e pistoleiros pelas terras da região do Araguaia-Tocantins naquele período.

O relato preciso de Kotscho mostra ao leitor o descaso e o desmando naquelas terras onde grande parte delas ainda ficava no estado de Goiás. Posseiros vindos para aquelas bandas muito antes de qualquer cidadão firmar os pés na mata densa, tiveram suas plantações, casas e vidas literalmente destruídas pela ganância dos fazendeiros que viam naquelas terras o futuro de um lucro melhor.

Apoiados por órgãos corruptos da ditadura, advogados, juízes e funcionários do governo favoreciam empresas multinacionais e proprietários ricos. Eram forjados mandados de busca para invadir as propriedades de pessoas humildes, que eram obrigadas a assinar um contrato onde praticamente entregavam sem ônus algum seu terreno para os invasores.

Hoje em dia a coisa inverteu-se. Os chamados ruralistas lutam contra o Movimento dos Sem-Terra (MST), clamando pelo dogma capitalista da propriedade privada, protegendo seus domínios como se fosse em uma guerra. Já os sem-terra –também preparados para o pior – prosseguem aguardando os programas de Reforma Agrária que não se efetivam no contingente necessário há décadas. Enquanto isso eles tentam encontrar alternativas de sobrevivência, chamando a atenção da sociedade para esse grave problema da acumulação de terras, improdutivas ou não.

Quanto ao resto, as semelhanças dos períodos são gritantes. Os assassinatos de posseiros por pistoleiros contratados para “fazer o serviço”, se equipara aos capatazes que vigiam as fazendas “ameaçadas por invasão”. A injustiça de ontem permanece, como no caso do assassinato do advogado Gabriel Sales Pimenta, em julho de 1982, na cidade de Marabá, no sul do Pará. Foi decretada somente no mês de agosto deste ano a prisão preventiva do mandante, o fazendeiro Manoel Cardoso Neto, o Nelito, que está foragido desde o ocorrido. Esse contraponto, posseiros X fazendeiros, mostra-se muito semelhante ao confronto ruralistas X sem-terra dos últimos anos, latente nos noticiários diários.

Por isso mesmo é de grande valia a leitura deste livro-reportagem, um resgate da história pouco abordada da devastação contra os posseiros e as florestas da região, em busca da acumulação de riquezas. A luta pela terra ainda prossegue ferozmente e com os mesmos objetivos. Só mudaram os lados de quem a possui.
posted by Unknown / 9/03/2003 09:07:00 AM

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