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terça-feira, outubro 21, 2003

Jornalismo Em Xeque

O espetáculo da notícia. Os acontecimentos históricos, políticos, econômicos, etc., formatados nas diversas mídias e vendidos a um módico preço. A expressão da verdade através de um retrato fiel dos fatos, mostrando ser os guardiães dos valores democráticos. É assim que se auto-intitulam os jornais e a chamada “grande” imprensa burguesa. Mas na verdade, o que há são interesses mais contundentes para as megacorporações midiáticas do que contar um evento com maior acurácia possível. Partindo desta reflexão, José Arbex Júnior analisa a lógica do jornalismo contemporâneo em Showrnalismo: a Notícia como Espetáculo, um verdadeiro best-seller para os críticos e a academia.

O jornalismo adquiriu importância preponderante nos Estados Unidos, durante o início do século passado, tendo voz ativa na sociedade e influindo indiretamente nas decisões tomadas pelos políticos, a partir de investigações e denúncias. Só que, a partir desse momento, iniciou uma relação promíscua com o Estado, que tentou atrair os donos das empresas jornalísticas para manter seu controle sobre a população. E claro, os chamados publishers desses jornais não desejavam nenhuma mudança profunda na sociedade, mantendo apenas a democracia-burguesia que eles se beneficiavam e também controlavam, através da informação.

Dando um salto histórico, já pelo final do século XX, os chamados meios de comunicação de massa (jornal, revista, televisão, rádio) passaram a ter cada vez mais importância e poder de decisão nos rumos políticos e econômicos. Isso se intensificou após as megafusões de empresas de mídia fundindo-se com outras gigantes da comunicação, como aconteceu com a Aol Time-Warner, citada no livro.

Outro ponto foi a aquisição de veículos midáticos por corporações totalmente distintas da área. Isso certamente compromete a objetividade e neutralidade vendida pelas mídias globais atualmente, como aponta Arbex: “proprietários privados agem sobre pessoas privadas enquanto público”. Quer dizer que as empresas privadas tem poder de condicionar o que as pessoas devem pensar e como pensar, afastando qualquer possibilidade de noticiar fatos que possam prejudicar essa corporação. O chamado simulacro da democracia está decretado, pois os meios de comunicação estão em quase união com o Estado, onde há a sensação de haver uma esfera pública real, mas, como afirma o teórico da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas, isso é somente aparente.

Outro aspecto interessante de Showrnalismo está no âmbito que a cultura possui em privilegiar a percepção visual como fonte principal de conhecimento. O problema está, pois, no relato de um acontecimento (seja pelo jornalismo que só assistiu uma parte do evento, seja pela imagem que selecionou um fato para gravar) condicionar nosso olhar e nossa memória individual, moldando-os. Segundo Arbex, a televisão cria mundos “reais” – caso da televonela –, nos quais o olhar empresta uma realidade, vivida no íntimo do telespectador, com o consetimento do mesmo. Sob este ponto de vista, a publicidade e a propaganda tem papel essencial, pois “estabelece modelos a serem seguidos, os padrões estéticos, físicos, comportamentais, etc.” em nossa sociedade, como atesta o autor. Os valores ideológicos são expurgados, e em seu lugar, a lógica de mercado é massivamente imposta em quase toda a produção jornalística.

Exemplo disso é o caso citado por Arbex sobre a Folha de São Paulo, em que trabalhou entre 1984 a 1992. Para ele, o Projeto Folha – que estipulou e padronizou uma linha de prática técnico-jornalística – “significou a adoção do discurso para o mercado como estratégia empresarial e editorial. Desde o início o Projeto Folha caracterizava a notícia como mercadoria, destinada a gerar lucros”. Isso exigiu a “despolitização” da redação, marca forte no Brasil até os anos 80. Para Arbex, a adoção deste projeto impulsionou uma espécie de “saneamento ideológico” da redação.

Além desta crítica, ele utiliza o material publicado para refletir sobre a dificuldade do profissional exercer sua função na “grande imprensa”. Arbex reconhece também a falibilidade de seu relato jornalístico de atingir seu leitor de maneira eficaz, com este apreendendo o máximo do que o jornalista percebeu na cobertura de determinado evento.

Enfim, mais que uma crítica ao jornalismo realizado pela mídia de maior porte, Shorwnalismo é a constatação de que o jornalismo é dominado pelos interesses privados de empresas capitalistas que vêem a notícia não como um bem público, ou como uma prestação de serviço e sim com o lucro, prejudicando o fiel e concreto relato jornalístico mais próximo da realidade.
posted by Unknown / 10/21/2003 09:25:00 AM

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