Textos, artigos, poesias, etc



domingo, agosto 01, 2004

Relato sobre um dia Qualquer*

Bem vindo novamente a Rotina Herrero!

É hoje. São cinco e vinte e manhã e ouço longe minha mãe me chamar: “Vamos Rodrigo, você vai se atrasar”. Nada como estar de volta à rotina. Hoje é meu primeiro dia após minhas fabulosas e incríveis férias que nada aconteceram, mas foram muito melhores que um ano e meio em meu trabalho. Após instantes dispersos em meu sono e atendendo a voz imperativa de meu pai resolvi levantar, até para parar de ouvir meus pais resmungando pelo adiantado da hora.

De forma mecânica me encaminho ao banheiro. Tomo banho em rápidos cinco minutos e, automaticamente, retorno ao meu quarto para colocar a roupa da labuta. Camisa social creme tão clara que ficou quase branca de tanto lavá-la. Calça social azul, sapato e meias pretas. Ah, já ia me esquecendo: “Filho, coloca o pulôver que está frio”, pedia carinhosamente minha mãe.

Tomo meu chá de erva cidreira matinal, sem comer nada – está muito cedo e o estômago não aceita intrusos a essa hora da manhã. Arrumo meus CD’s, as bananas, a marmita, os cadernos, os livros, o discman, tudo dentro da bolsa. E claro, duas fatias de pão de forma com requeijão, sugeridos de forma instintiva pela minha mãe.

Saio. Após despedir-me de minha mãe sigo confiante e animado rumo ao metrô. Compro o bilhete no camelô, pois a fila da bilheteria está imensa. Pego o metrô sentido Corinthians-Itaquera para ver se tenho a sorte de voltar sentado. Sucesso! Fui para Barra Funda devidamente sentado. Puxo um livro do Kucinski para fazer algumas anotações, pensando na próxima coluna do Rabisco que tenho que fazer para quarta-feira.

Sete horas. Desço na Barra Funda e aquele mar de gente vindo em sentido contrário me impede de tomar o trem da CPTM para Carapicuíba. Conforme me aproximo da HP a expectativa e ansiedade aumentam. Cinco minutos apenas de espera – milagre! – e novo trem chega, pronto para levar toda aquela multidão que o espera.

Já em Carapicuíba, o velho cenário que eu não via desde quando fui visitar meu amigo Fernando que para lá se mudou: camelôs em profusão vendendo de tudo (frutas, churrasco, lanches, guarda-chuva, balas, cintos, etc.). Muita sujeira, pessoas aos montes e em vários ônibus completam a poluição visual. Lembra muito a rua 25 de março em seus horários de rush. Deixei de lado esse panorama e caminhei até o ponto da linha que me leva para Alphaville. Coletivo lotado. Entre “licença” e “desculpe” cheguei até o fundo do veículo, o mais próximo possível da porta. A essa hora milhares de pensamentos corriam minha mente: “Será que as coisas mudaram na HP? Haverá novidades? Me mandarão embora? Bem que podiam...” eram pensamentos que pululavam a todo instante.

Após trânsito irritante e um percurso de 5 minutos durar 15, desci em frente a rua Tamboré, em Alphaville, atrasado, certamente. Andei pela rua a passos apressados até avistar os pequeninos, mas extensos blocos de concreto da Hewllet-Packard. Adentrei a portaria sem ser notado, como sempre, e subi em direção ao segundo andar do bloco onde trabalho.

Já eram 8:08 quando entrei na baia do grupo de administração de chamados, meu setor. Fui até que bem recepcionado por meu supervisor Fernando (que nada tem a ver com meu amigo) e pelos colegas Marcelo, Rose e Robertson. Senti a ausência da Karina que enviaram de volta à central. Conversas rápidas e amenas sobre como estavam as coisas por lá e sobre minhas férias se passaram e me dei conta que começara tudo de novo, como sempre. Já sem aquele ânimo e confiança da manhã relutei a ligar o computador, passando a observar a mesa e as sutis alterações físicas de meu núcleo de trabalho.

Liguei o PC e retornei a rotina diária, apesar de ainda estar perdido no tempo e no espaço: “que eu estou fazendo aqui?”. Organizei a caixa de entrada dos meus emails, lembrei senhas de programas e bati papo no messenger com meu fiel amigo de todas as horas: Fernando (o primeiro).

Parte da manhã foi jogada fora nisso, com pouco serviço e muita organização e retomada de costumes. A cabeça na reportagem da faculdade que tenho de entregar hoje. Obtive informações diversas, dados mil, mas não tinha uma fonte sequer para dar uma palavra a respeito. As tentativas que fizera com a prefeitura, as secretarias de cultura do estado e do município, consultorias, empresas, não foram felizes.

Agora já são meio dia. Pontualmente é hora do almoço, tempo de trancar a mesa e ir até o refeitório, pegar a marmita da mini-geladeira e esquentá-la no microondas. Mas antes imprimi um esquema da matéria para tentar pensar o texto, pois estava perdido em meio a tantas informações.

Após degustar um ótimo macarrão parafuso com queijo ralado e pedaços de carne assada de domingo segui para o estacionamento a fim de isolar-me e refletir com mais calma. O Sol forte castiga, apesar do friozinho ameaçador. Não estava com vontade de pensar o texto, persistia o medo, para variar. Comecei a fazer contas para ver quando poderia pedir demissão e ter dinheiro para a re-matrícula do meio do ano.

Junto com as nuvens e a ventania veio a inspiração para escrever e daí fiz o parágrafo inicial, pois estava na hora de retornar do almoço. Esse incentivo salvou o dia e com ele consegui manter uma concentração mínima para concatenar as idéias e fechar o texto, revezando com alguns ”trabalhicos” simples e atendendo o telefone. Era o tradicional “migué” que também estava de volta, pois o que me interessava era concluir a matéria.

Lá pelas quatro da tarde encerrei o texto, comi uma banana e vi o tempo passar em meio aos serviços de rotina. Despedi-me do pessoal às cinco, afinal, era hora de ir. Ainda bem. Novo ônibus, o mesmo trânsito, novo trem, a mesma multidão. E também a idéia de descrever este dia, até pelo fato deste ser simbólico ao momento atual das circunstâncias. Concluí o essencial do relato no momento que o condutor do metrô informa: “Estação Penha”. Por acaso? Provavelmente sim. Daqui sigo para a universidade, com um texto sem declaração, uma mala cheia de coisas machucando meu ombro e as mesmas angústias de antes do carnaval.

*Relato de um dia distante de uma época que eu nem me lembro mais...
posted by Unknown / 8/01/2004 03:02:00 PM

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