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sábado, junho 04, 2005

Novidade

Este artigo foi publicado no Jornal Brasil de Fato em abril passado e, a partir de agora, eu irei abrir exceções e colocar coisas que não são minhas por aqui, mas qeu eu ache extremamente relevantes, ok? Grande abraço e divirtam-se!

Quem precisa de Veja?


Por Gilberto Maringoni (*)

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, está atravessado na garganta da revista Veja. Os motivos são basicamente dois. Um é - chamemos as coisas pelos nomes - ideológico. Veja soma-se ao ódio profundo - pelos nomes, pelos nomes! - classista, racista e político devotado ao mandatário venezuelano pela mídia de seu país, que o sataniza a ponto de concluir tratar-se de um débil mental. A pauta é ditada pela imprensa estadunidense mais conservadora, tendo o Washington Post à frente. Veja acha que Chávez não é democrático. Até aí, é um direito de quem manda na publicação.

Estragou uma capa

Mas o ódio de Veja tem por base um outro elemento, mais concreto. Chávez estragou uma capa que deve ter dado muita satisfação à alta direção da empresa da família Civita. Recordemos a chamada de capa do número 1.747, datada de 17 de abril de 2002. A edição fechava na noite de sexta-feira, 12 de abril.

Menos de 20 horas antes, a oposição de Chávez - composta por membros do empresariado, em aliança com o alto comando das forças armadas, setores da burocracia petroleira e a Casa Branca - consumara um golpe que o retirara do palácio de Miraflores, acabando com as instituições democráticas do país. Veja não teve dúvidas. Sapecou na capa a chamada: "A queda do presidente fanfarrão". Na página 45, Veja sentenciava:

"Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". Todos sabem o resto da história. Quando chegou às bancas, na manhã de domingo, a edição estava para lá de velha. Milhões de venezuelanos nas ruas e uma inédita divisão do Exército abortaram o golpe. Veja sequer pediu desculpas aos leitores pela barriga, na semana seguinte.

Agora Veja volta à carga na edição desta semana, aliás, primorosa no que revela de sua linha editorial. A capa é eloqüente: "Quem precisa de um novo Fidel?" Encimada pela expressão carrancuda do líder venezuelano, a manchete logo emenda: "Com milícias, censura, intervenção em países vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela uma nova Cuba".

Condinha paz e amor

A entrevista das páginas amarelas é com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. O tom é todo Condinha paz e amor, como se vê pelo trecho seguinte: "Mesmo quando a missão inclui assuntos mais comezinhos, como as encrencas de Hugo Chávez na Venezuela e as hesitações brasileiras na Alca, Condi tem se saído extraordinariamente bem na Operação Simpatia. (...) Pianista, especialista em relações internacionais e fluente em russo, chegou a reitora de Stanford e, embora negue quase que diariamente, o caminho da Casa Branca é uma possibilidade no horizonte".

Não há encrencas COM Hugo Chávez, mas encrencas DE Hugo Chaves, de acordo com o olho da entrevista. O pingue-pongue pauta a edição. Mas a grande arte está lá no meio da revista, sob o espirituoso título: "O clone do totalitarismo". Em seis páginas ficamos sabendo, entre outras coisas, o que se segue. Alguns comentários são colocados abaixo de cada trecho.

"Chávez dá dinheiro e apoio político e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos". Sequer a CIA consegue levantar uma única evidência de que tal fato esteja ocorrendo. "Venezuela substituiu a União Soviética como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo e abastecendo o país de bens de consumo industrializados, tudo a preço simbólico ou a fundo perdido".

Não há preço simbólico ou fundo perdido. Há um acordo, firmado em 30 de outubro de 2000, pelo qual a Venezuela fornece a Cuba 53 milhões de barris diários de petróleo - metade do que a Ilha consome - a preços de mercado, com prazo de carência de até 15 anos. Além de pagar, Cuba compensa as condições de financiamento mediante o fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos, além de remedis, vacina e açúcar. A íntegra do acordo pode ser lida em: http://www.asambleanacional.gov.ve/ns2/leyes.asp?id=175. Seria bom aos elementos responsáveis pelos textos de Veja darem uma lida antes de mentirem aos seus leitores.

"Ele diz a toda hora que os americanos querem mata-lo ou estão prontos para invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi o governo de George W. Bush evitar respostas ás provocações". Até agora o que de real se viu foi o governo Bush patrocinar, entre outras coisas, um golpe de Estado. Uma recomendação aos redatores de Veja: encomendem o recém-lançado livro El código Chávez - decifrando la intervención de los EE. UU. em Venezuela, da advogada estadunidense Eva Golinger (Fondo Editorial Question, 336 páginas). O volume é resultado de uma exaustiva garimpagem em documentos oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, obtidos sob o amparo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom Infromation Act).

Em suas página, a autora desvenda - com fartas provas e evidências - as relações entre a entidade conhecida por National Endowment for Democracy (NED) e a oposição venezuelana, incluindo fornecimento de dinheiro e uso de chantagem política e estímulo à violência. É ressaltado ali que o embaixador estadunidense, Charles Shapiro, foi o primeiro a se reunir com o líder do golpe de 2002, Pedro Carmona. E, entre muito mais, o livro detalha - com os números de matrícula - as embarcações e aviões dos EUA que entraram em águas territoriais venezuelanas, sem autorização, durante o golpe.

A matéria tem muito mais. É impossível dizer onde está a pior parte. É um panfleto, bem ao gosto do que faz na Venezuela a imprensa local. Como ela, Veja não trafega pelos caminhos do apego à realidade. Sua matéria-prima é a ficção e a lorota pura e simples. É parte do novo coro golpista que se avoluma contra um governo democraticamente eleito, tendo como repetidores outros órgãos da imprensa brasileira.

Que os Civita façam isso, é papel deles. Mais uma vez - chamando as coisas pelo nome - é papel de sua classe social. A matéria é assinada por Diogo Schelp, Ruth Costas e José Eduardo Barella. São contratados e fazem o que o patrão manda. Servir bem para servir sempre, parece ser o lema. Talvez acreditem no que escrevam. Mas não deixa de ser deprimente a existência de gente que tope assinar uma peça totalmente editorializada e anti-jornalística, apenas para manter sues proventos no fim do mês. É certo que a vida anda difícil, mas tem um pessoal que pega pesado.

(*) Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior, é autor de A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Fundação Perseu Abramo) e observador, a convite do CNE, no processo do referendo revogatório na Venezuela.
posted by Unknown / 6/04/2005 09:36:00 PM

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