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sexta-feira, maio 28, 2004
Análise da reportagem “Hábitos etílicos de Lula se tornam preocupação nacional”, do jornalista Larry Rohter, publicada pelo jornal estadunidense New York Times
A matéria em questão é do correspondente no Brasil do jornal estadunidense New York Times, Larry Rohter, que trata sobre um suposto problema do presidente da República Luis Inácio Lula da Silva com o álcool e uma pseudo preocupação da população brasileira com esta situação. Pretende-se analisar as falhas técnicas e éticas do jornalista em relação a sua busca pela comprovação de uma tese em seu relato, de que Lula estaria enfrentando sérios problemas com bebida e que isso estaria influenciando a condução de seu governo.
Logo de início é perceptível os erros da reportagem. Quando Larry Rohter afirma que Lula “nunca escondeu seu apreço por um copo de cerveja, uma dose de uísque ou, melhor, um trago de cachaça”, o jornalista não apresenta provas substanciais disto, muito menos declarações do próprio presidente a respeito. Ele ainda levanta a especulação de que as crises do governo Lula estariam ligadas às suas bebedeiras. Oras, isso não é jornalismo, pois o mesmo deve trabalhar com provas factuais e não “balões de ensaio”, boatarias, etc., como foi o caso do texto publicado no jornal New York Times.
O jornalista relacionou de próprio pensamento as diversas gafes cometidas pelo presidente ao longo de seus discursos ao suposto problema de alcoolismo de Lula. Não há provas que liguem uma coisa a outra, como declarações de pessoas próximas que o viram passando mal por causa de bebida, apuração de quantos drinques havia bebido, etc.
Larry Rohter desqualifica o próprio trabalho ao dizer, a certa altura do texto, que o pai do presidente brasileiro, “um alcoólatra que abusava de seus filhos”, era uma pessoa que Lula mal havia conhecido. Oras, não tem porque ligar o alcoolismo do pai Aristides ao problema que o presidente Lula teria com o álcool. Outra leviandade está no preconceito utilizado ao afirmar que os sindicatos trabalhistas possuem um ambiente de “alto consumo de bebida”, generalizando-os, sem comprovar que o consumo de álcool, tão comum a qualquer convívio em sociedade em boa parte do mundo ocidental, inclusive nos Estados Unidos, interfere no trabalho dos sindicatos brasileiros.
O correspondente do New York Times menciona um caso em fins da década de 80, quando Lula era deputado federal e membro do Congresso Nacional. Este teria tentado arrombar a porta do apartamento errado do edifício que residia, porque estaria bêbado, colocando isso como prática comum do então parlamentar Lula, inclusive por declarações de “políticos e jornalistas daqui, incluindo alguns que são ex-moradores do prédio”, sem indicar quem fez tal acusação. Retirou também do contexto a frase "Sob Lula, a caipirinha virou bebida nacional por decreto presidencial", da Folha de São Paulo, sobre a ligação de Lula com o álcool.
Sem contextualizar os fatos históricos do Brasil, Rohter cita o ex-presidente Jânio Quadros, como outro caso de presidente beberrão, que renunciou em 1962, após “durante o que dizem ter sido uma maratona de bebedeira”. Segundo o jornalista, isso influiu para o período de instabilidade política no país que resultou no golpe militar de 1964. Relata, também, que os brasileiros tem preocupação com esse fato, insinuando, displicentemente, que isso é um caso comum no país.
Fontes Qualificadas?
O jornalista do New York Times, Larry Rohter, não classifica, nem contextualiza, as poucas fontes indicadas de forma direta em sua reportagem. No caso do presidente do Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Sr. Leonel Brizola, há apenas a citação do partido e que o mesmo seria de esquerda, sem trazer informações quanto a fonte em questão. E, ainda, coloca de forma falha as declarações especulativas de Brizola: “segundo dizem, continua bebendo”.
O mesmo ocorre em relação a Diogo Mainardi, limitando-se a dizer que Mainardi é um “provocador colunista” da Veja, principal revista de notícias do país, segundo o jornalista. Rohter cita que sites reclamaram da situação do presidente alcoólatra, mas não publica de onde foi retirado isso. Não haveria nenhum problema, afinal, em sendo um documento impresso, ou on line, é de fácil verificação e não haveria a necessidade de preservar a fonte, por se tratar de um documento publicado. Isso põe claramente em xeque a pseudo-informação que Rohter estaria trazendo ao leitor estadunidense.
Cita Claudia Humberto, assessor do ex-presidente “cassado” brasileiro Fernando Collor de Mello, adversário mortal de Lula na disputa das eleições presidenciais de 1989, sem trazer essa informação. Rohter fala na matéria de um concurso, sem citar qual, que teriam ocorrido piadas para o nome do recente avião presidencial comprado por Lula, fazendo ilações como “Movido a Álcool”, referindo ao plano do governo de utilizar etanol como combustível de carros, e não dizendo que isso é por causa da “bebedeira presidencial”. Mais uma desqualificação do próprio trabalho realizado pelo jornalista.
Não há citação do chamado “outro lado da notícia” de forma qualificada, que agregue valor ao relato, limitando-se o jornalista a dizer que “porta-vozes de Lula se recusaram a discutir o hábito de beber do presidente”, sem dizer quem são e, ainda, colocando o excessivo consumo de álcool do presidente como uma coisa líquida e certa. Em outra passagem ele coloca mais uma vez declarações de forma indireta de “assessores e simpatizantes de Lula” no texto, não mostrando quem são.
Afirma, ainda, que a imprensa local trata o assunto de forma indireta, por citar o número de churrascos, bebedeiras, as fotos de “olhos turvos e rosto corado”, sem citar as fontes onde isso está, nem a matéria e a frase colocado pelo veículo que ele atribui tal situação. Diz, também, sobre os esforços do presidente para não fumar em público, de flertes com atrizes e com o controle de peso, sem trazer dados comprobatórios, demonstrando ser uma tese retirada totalmente do “nada”.
Após todos os pontos levantados nesta análise, percebe-se que a matéria de Larry Rohter é uma verdadeira bobagem, repleta de falhas técnicas do jornalismo ocidental como conhecemos. O texto todo tem uma conotação fortemente opinativa editorializada, especulativa e maldosa, cheia de insinuações sem base comprobatória. Não há comprovação dos questionamentos mencionados pelo jornalista, que coloca fontes com total interesse na informação divulgada, e ainda por cima sem contextualizá-las. Não há proporcionalidade quanto a ouvir os dois lados do fato de forma coerente, principalmente porque não há classificação das fontes que defendem o presidente Lula. Além disso, essas fontes são colocadas sempre de forma indireta, o que, como bem sabe todo jornalista que estuda os preceitos éticos e as regras técnicas de sua profissão, diminui consideravelmente a força e impacto do que é dito perante o público leitor.
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