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sábado, julho 24, 2004
A Paixão e o Jornalismo
O jornalismo nunca perderá sua veia romântica. Homens como Mário Prata, Rubem Braga e Ricardo Kotscho, com talento nato para as redações e faro jornalístico sempre terão voz e lugar nas grandes empresas midiáticas, para dar vazão a suas opiniões e engrandecer as páginas impressas com seus eloquentes ensinamentos, como a crônica “O Repórter e o Linotipo”, de Mario Prata, escrita recentemente para O Estado de S. Paulo. Só que, não se pode esquecer que vivemos um outro mundo.
A síndrome da globalização “persegue” cada urbanóide que corre como um louco atrás de um tempo que nunca vai controlar. E os representantes dessa nova desordem cotidiana são os jornalistas. Deadline, competitividade, pressão, falsidade, humilhação, estresse, loucura. Essas são algumas das “maravilhas” do século XXI herdadas a quem escolhe a profissão hoje. Não há mais, como Prata disse, de ficar “um mês na rua” atrás de um furo de reportagem. Não existe a preocupação com a crase, com a vírgula (não sei ambas direito), nem com o linotipo que saiu de cena há uns 100 anos, que ainda resiste em algumas gráficas espalhadas pelo nosso Brasil em chamas. Não há preocupação com a reportagem aprofundada, investigativa. Hoje são feitos pacotes de notícias, fragmentos tortos de uma realidade vazia e distante da maioria do povo brasileiro. Um povo marcado pela dor e pelo sofrimento, mas que muitos insistem dizer que é feliz.
Não se pensa mais na preparação, dentro da redação, para os chamados “focas”. Eles são jogados diretos nas covas dos leões, vindos de um ensino privado parco e porco, sem investimento das empresas de educação, sem incentivo material e humano e sem atitude e paixão pela profissão dos estudantes letárgicos de jornalismo. Mas não são somente nós, a juventude em geral não vai atrás de seus sonhos, assim como os repórteres não vão mais atrás das novidades.
Concordo com Prata quando ele coloca que falta um conhecimento maior dos jovens jornalistas, justamente por nós não termos um contato com as redações, nem nos casos de "prazo de experiência". As redações estão cada vez mais enxutas, sem tempo de “dar atenção” às moças e garotos. Acredito, porém, que seja necessária a formação do jornalista em uma universidade, por conta da bagagem humanista que ele recebe através de disciplinas diversas do jornalismo, mas que estão intrinsecamente ligadas a profissão. Seria preciso apenas trazer esse bojo teórico para a prática jornalística do dia-a-dia, aperfeiçoando o ensino.
Mas isso não vai acontecer com essas universidades privadas que tomam o dinheiro do aluno sem fornecer um ensino firme, transformando-os em espectros de repórteres. Falta mais comprometimento da imprensa, das universidades, dos professores e dos alunos, em formar pessoas capazes de compreender o mundo como ele é, e não como querem transformar.
Por isso, Mario Prata, ser repórter depende de muito mais coisas externas do que somente internas. Mas reconheço que falta empenho e amor a quem resolve se enfiar no escuro meio do papel-jornal. As assessorias de imprensa amansaram os jornalistas, deram a eles uma possibilidade de ter vida social (mas afinal, prá que serve isso hoje?), mas os afastaram da rua e do contato com as pessoas. O discurso hoje é contra o ócio e, consequentemente, contra o pensar, a leitura, a reflexão, os sonhos, contra "viajar" em pensamentos até cair no sono. Precisamos sonhar mais, acreditar e lutar. Precisamos ler e escrever mais também. Com muito mais paixão.
domingo, julho 11, 2004
A Violência Globalizada e sua Overdose na Mídia
Violência ameaça vida cotidiana até na televisão, valorizada por programas que banalizam o ser humano diariamente
A violência é um dos maiores problemas na sociedade globalizada de hoje. Com medo de tudo as pessoas cada vez mais fecham-se em si mesmas, andam pelas ruas receosas, em absoluta paranóia de estarem sendo perseguidas, isolando-se em suas residências. Mas, mesmo em suas casas, a violência as ronda, através da televisão, com programas que exibem demasiadamente chacinas e mortes, ou filmes de ação que mostram explosões e corpos dilacerados. Sem contar diversos desenhos que incentivam a violência, transformando o povo em um refém desse mal que perdura por toda a História da humanidade.
Um exemplo de violência foi mostrado no filme O Invasor, do diretor Beto Brant, que retrata a corrupção e a falta de valores e princípios da classe média nos últimos anos. A película retrata a história de três sócios (Giba, Ivan e Estevão) de uma construtora, sendo que, dois deles planejam o assassinato do terceiro sócio (Estevão), para ficar com a parte maior na construtora. Porém, o homem contratado par matar (Anisio) passa a participar do cotidiano dos mandantes, e da herdeira da construtora (Marina), e invade esse mundo que não era dele, contudo, a partir daquilo acaba se tornando seu. Giba, que insistiu em seguir com o plano de matar Estevão, começou a negociar escondido de Ivan. Teve também a idéia de matá-lo também, ou ao menos distrair Ivan nas drogas e na companhia de uma amante, para ter maior controle na empresa. No final, Ivan entrega tudo para a polícia, só que a mesma estava “comprada” e levou-o na casa de Anisio (agora rico, morando na mansão da filha do Estevão), sendo que Giba estava lá, planejando executar seu ex-parceiro Ivan, alertando para os policiais “darem um jeito no cara”, pois ele entregara todo mundo.
Essa história pinta bem o quadro atual da violência, beirando ao impensável de assassinar um amigo para obter mais poder, mais dinheiro. Sujar-se nesse mundo do crime para ter vantagem em relação a outras pessoas, mostrando inclusive o esquema previamente armado com a polícia, sem escrúpulos em alguns casos, revelando que as pessoas devem desconfiar de todos que conhecem.
E qual seria o papel da mídia na questão da violência em nosso país? Como a mídia deveria trabalhar para contribuir com a sociedade de uma forma que a violência diminuísse, e o cultuamento dessa prática fosse também dirimido?
Estas são questões bem complicadas de responder, justamente porque o papel que a mídia exerce atualmente, é o caminho contrário, principalmente no caso da televisão: "A mídia é uma das mais contundentes formas de se propagar e exaltar a violência”, afirma Rodrigo Cunha em artigo publicado no site Com Ciência. Exemplos clássicos disso são os programas Cidade Alerta, Linha Direta, Repórter Cidadão, exibidos pela Record, Globo e Rede TV!, respectivamente, e mais uma gama de outros programas que dramatizam e incentivam a violência, e distorcem o fato, colocando uma imagem diferente do ocorrido. Como Cunha diz, ainda no referido artigo: "A mídia interfere no fato, dramatiza e exagera na cobertura do episódio violento”.
Outro fator importante e que acarreta uma verdadeira espetacularização da violência hoje em dia são os filmes e desenhos que as crianças assistem. São criados mundos fictícios, que ninguém se machuca, além de abordar a violência de uma forma devastadora, prejudicando a evolução dos pequenos em muitos casos. “Nossa geração tinha referências altruístas: Jesus, Maria, São Francisco e, mais tarde, Gandhi, Luther King, Che Guevara etc. Éramos educados no idealismo, no sonho de mudar o mundo e fazer todas as pessoas felizes. Os paradigmas atuais são quase todos egocêntricos, violentos ou excessivamente erotizados”, declara Frei Betto em artigo publicado no site Mídia da Paz.
A mídia, no caso especial da televisão, deveria saber discernir o que deve ou não passar em determinado horário. Deveria também parar de colocar a violência em primeiríssimo lugar na sociedade, gerando um medo na população, ao dar ares espetaculares ao tipo de atrocidades que se pratica hoje, sem contribuir em nada à vida das pessoas. E essa melhoria aconteceria através de programas mais educativos para as crianças, elementos que acrescentem à cultura delas. Além de uma diminuição também de filmes excessivamente violentos na TV, bem como acabar com a banalização da violência na televisão, que a tem tornado hoje num entretenimento como qualquer outro.
Fontes
Com Ciência: Revista Eletrônica de Jornalismo Científico - Mídia dramatiza a violência, dizem pesquisadores. São Paulo, 2001. http://www.comciencia.br/reportagens/violencia/vio06.htm
Movimento Mídia da Paz – Educação e Violência Televisiva. São Paulo, 2002. http://www.midiadapaz.org/transformacao/freibettotv.htm .
* Texto originalmente escrito em 2002 e revisado em 2004.
quarta-feira, julho 07, 2004
Começa mais uma Copa América para o Brasil
Sem grandes craques, seleção brasileira estréia desacreditada no Peru
O Brasil entra em campo nesta quinta-feira em Arequipa, cidade do interior do Peru, contra o Chile, na estréia da Copa América de seleções sem nenhuma de suas estrelas maiores. Esvaziada pela sua freqüência (o torneio é realizado a cada três anos)e por acontecer em meio as eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo, durante o período de férias dos atletas que atuam no futebol europeu, a Copa América vive a vagar de acordos políticos e esvaziamento cada vez maior de seus participantes. O Uruguai, por exemplo, esteve ameaçado de não ir, devido a uma dívida com seus atletas. E, além do Peru, praticamente só a Argentina veio com o time completo, se é que pode-se assim dizer, já que Riquelme, entre outros, não participarão da competição.
O Brasil, seguindo a lógica das últimas edições, não trouxe nenhum jogador da seleção principal, preferindo dar oportunidade aos atletas que atuam em solo brasileiro e aos "europeus" que possuem pouca ou nenhuma chance na seleção "original". Mesmo assim, a seleção estreará nesta quinta-feira repleta de problemas. O goleiro Júlio César quase foi cortado, devido a uma contratura na coxa. Mas joga. O lateral esquerdo Gilberto não teve a mesma sorte e foi cortado. Júlio Batista será poupado da partida devido a uma contusão e Kléberson foi afastado desta por conta de lesão parecida à de Júlio César. Em seu lugar deverá entrar Dudu Cearense.
Se, já sem contar com os grandes craques a coisa anda feia, o que dirá sem os que foram chamados à Copa. Um time que nunca jogou antes, desentrosado, desconhecido, com pouco tempo de treinamento e aclimatação aos 2.400 metros de altitude de Arequipa merece ser olhado com cautela. Sem contar a pouca repercussão do Brasil por essas terras, que tiveram poucos ingressos da chave C, que compõem: Brasil, Chile, Paraguai e Costa Rica
O técnico Carlos Alberto Parreira mesmo não cobra muito dos jogadores e já se defende, antes do início da competição, de um fracasso que pudesse acometer a seleção "genérica". Parreira não dá muita importância para o torneio, que serve, segndo ele, como uma observação de atletas que podem ser aproveitados em futuras convocações para a seleção principal. Mas, com isso, ele precisará ser menos conservador para testar posições, variações táticas, etc., e isso já é pedir demais do Parreira, portanto, o jeito é esperar e ver no que vai dar.
A verdade é que ninguém dá a mínima para o torneio, que começa sem nenhuma pompa e circunstância, totalmente em oposto ao que fora a Eurocopa, encerrada domingo último, com estádio lotado em todas as partidas e festa garantida nas arquibancadas e nos gramados. Mesmo com o futebol mais ou menos apresentado nos campos portugueses, coisa que já vem acontecendo desde a Copa do Mundo de 1990, na Itália, no mínimo.
Mesmo assim, o Brasil entra em campo como favorito e obrigado a dar espetáculo e a vencer, sempre. Isso coloca em risco diversas carreiras, a ponto dos jogadores se "queimarem", caso a equipe não consiga engrenar durante a Copa. E isso já ocorreu em vezes anteriores e, com rostos sem prestígio e renome na seleção brasileira, não será nenhuma aberração (mais) um fiasco.
domingo, julho 04, 2004
Conceitos Básicos para um Bom Jornalismo
Livro reúne princípios vitais para fazer um jornalismo honesto e de qualidade
O Que é Jornalismo é um livro que trata, didaticamente, os conceitos essenciais do jornalismo, tudo na visão de seu autor, Clóvis Rossi. Jornalista há mais de quatro décadas, Rossi trata o assunto com pleno conhecimento, em um livro analítico sobre questões como a fidelidade à informação e a honestidade. Sendo esses princípios básicos, além da paixão pela profissão, para se fazer um jornalismo correto com o público leitor.
O livro inicia tratando sobre a objetividade, e consequentemente, a neutralidade, conceitos importados dos Estados Unidos. Segundo o autor, não há como estabelecer nenhum dos dois aspectos, pois entre o fato e a versão existe o jornalista que possui toda sua formação cultural e pessoal, impossível de ser extraída ao fazer uma reportagem, que acaba por influir no direcionamento de um determinado acontecimento. Isso acaba gerando algumas distorções no andamento do jornal. Conseqüência disso é a forma como as pautas são geridas nos jornais brasileiros. A pauta seria uma dessas distorções que afetam o bom andamento do jornalismo, pois limitam a autonomia do repórter, sendo submetido pela pauta.
Outra situação que ajuda a essa distorção é a má utilização do lead, que serve como auxílio para sintetizar a matéria. Porém, os jornalistas passaram a concentrar a construção da informação somente na especialização dessa técnica, que respondessem as seis perguntas fundamentais (quem, o quê, quando, onde, como, porquê), apenas na abertura do texto jornalístico, sem um maior aprofundamento, deteriorando seu conteúdo.
O livro trata sobre aspectos interessantes, como a introdução do copidesque no país. Sua função inicial seria de remodelar os textos vindos de outras localidades. Contudo, tornou-se mais um filtro de informação, além dos que já existem nos jornais (redator, editor, diretor), deturpando, muitas vezes aquilo passado pelo repórter que vivenciou o fato. Rossi defende a especialização e boa formação dos jornalistas em determinadas editorias, bem como a importância do mesmo em questionar todas as posições sobre o fato, tudo para se aproximar da verdade, sem se perder em informações pouco confiáveis. Critica as universidades por ensinar muito pouco da profissão, desmistificando, inclusive o jornalismo, de uma forma bastante simples e introdutória ao conhecimento do que é ser jornalista.
O Que é Jornalismo mostra, com isso, uma visão problemática, ao menos do que acontecia no jornalismo na época em que o trabalho foi produzido, preocupando-se com os rumos conformistas e inertes que a profissão se encaminhava. Na verdade, o livro é tão atual que as preocupações do autor se fazem cada vez mais fortes nos dias de hoje. Rossi destaca, portanto, a honestidade como papel determinante da realização de um bom trabalho, fiel as convicções jornalísticas, preocupado sempre com a informação precisa que chega aos olhos do leitor.
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