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sábado, junho 25, 2005

Conto de pensamentos desconexos (*)

Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.

O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.

A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazia, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.

Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.

Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?

O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatife em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.

O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.

Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.

(*) Um conto de alguns meses atrás que estava perdido por aqui.
posted by Unknown / 6/25/2005 03:10:00 PM

quarta-feira, junho 15, 2005

Uma verdadeira alternativa para o povo latino-americano (*)

Rodrigo Herrero

Surge uma nova proposta de integração da América Latina, em oposição à submissão proposta pela Área de Livre Comércio das Américas (Alca), dos Estados Unidos. No final de abril, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, esteve em Cuba para firmar com o presidente cubano, Fidel Castro, 49 acordos de cooperação que marcam o início da implantação da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba).

O objetivo da Alba é ampliar a integração proposta pela Alca, fazendo com que os acordos não se limitem à área econômica, passando também a questões sociais e culturais, levando em consideração a solidariedade e o respeito à soberania das nações. Entre os acordos estabelecidos na reunião em Havana, estão a instalação de uma sede da PDVSA (empresa petroleira venezuelana) e do Banco Industrial da Venezuela, na capital cubana. É a primeira vez que um banco com capital inteiramente estrangeiro se instala na ilha. Em contrapartida, um banco de Cuba será criado na Venezuela.

O governo cubano também vai aumentar seu apoio à educação popular, com o objetivo de derrubar a zero o número de analfabetos na Venezuela, assim como é em Cuba. Na saúde, 30 mil médicos venezuelanos serão formados em Cuba, além deste governo prometer realizar 20 mil cirurgias em venezuelanos de baixa renda. Há acordos também nas áreas de transporte, desenvolvimento tecnológico, turismo, meio ambiente, produção agrícola, além da criação da TV Sul, uma rede continental de televisão.

Fim da Alca
Essas propostas, por si só, já excluem os EUA, que vêem a Alca ir para o vinagre a cada dia que passa, pois os movimentos sociais das Américas fazem a resistência necessária para impedir que esse mega-acordo saia do papel. Inclusive, janeiro deste ano a Alca era para estar em funcionamento, mas a pressão interna dos trabalhadores impediu esse disparate. Para contornar isso, os EUA têm buscado uma alternativa para explorar os mercados latinos, por meio dos Tratados de Livre Comércio (TLCs) Andino, da América Central e do Caribe, que são acordos bilaterais, em que os EUA negociam diretamente com cada país.

Alguns acordos já estão encaminhados, mesmo assim, há países que não conseguem ceder às pressões estadunidenses, pois a oposição em seu terreno os coloca numa saia justa de lascar. Claro, um acordo meramente comercial, em que um país pequeno e de economia frágil, como o Panamá, por exemplo, vai se beneficiar em quê em relação a uma potência como os EUA? Somente países como Colômbia, Peru, Chile, que possuem presidentes alinhados e financiados pelo Império aceitam esse tipo de acordo que beneficiam sua classe, deixando os trabalhadores na miséria.

Não é a toa que Washington viu com cautela essa reunião de um país em fase de revolução (Venezuela) e outro com uma revolução consumada há mais de 40 anos (Cuba). Através de seu Departamento de Estado, informou que vai continuar pressionando por sua ¿agenda positiva¿, ao colocar que esta possui um futuro democrático. A retórica estadunidense de que sua fórmula de Estado é democrática e deve ser a única a ser seguida chega a ser revoltante, por querer aviltar a soberania das nações seguindo seus próprios caminhos, optando por acordos solidários e não comerciais, em que os povos são beneficiados e não os empresários.

Resta torcer para que acordos como os de Cuba e Venezuela se proliferem nas Américas e que a Alba seja realmente uma alternativa, tomada pelos demais países que queiram se libertar do capital estrangeiro para ter em suas economias a fortaleza necessária para se tornarem independentes de quem sempre os usurpou.

(*) Texto originalmente publicado em www.zinefuckoff.blogger.com, a zine mais visceral da internet.
posted by Unknown / 6/15/2005 07:06:00 PM

sábado, junho 04, 2005

Novidade

Este artigo foi publicado no Jornal Brasil de Fato em abril passado e, a partir de agora, eu irei abrir exceções e colocar coisas que não são minhas por aqui, mas qeu eu ache extremamente relevantes, ok? Grande abraço e divirtam-se!

Quem precisa de Veja?


Por Gilberto Maringoni (*)

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, está atravessado na garganta da revista Veja. Os motivos são basicamente dois. Um é - chamemos as coisas pelos nomes - ideológico. Veja soma-se ao ódio profundo - pelos nomes, pelos nomes! - classista, racista e político devotado ao mandatário venezuelano pela mídia de seu país, que o sataniza a ponto de concluir tratar-se de um débil mental. A pauta é ditada pela imprensa estadunidense mais conservadora, tendo o Washington Post à frente. Veja acha que Chávez não é democrático. Até aí, é um direito de quem manda na publicação.

Estragou uma capa

Mas o ódio de Veja tem por base um outro elemento, mais concreto. Chávez estragou uma capa que deve ter dado muita satisfação à alta direção da empresa da família Civita. Recordemos a chamada de capa do número 1.747, datada de 17 de abril de 2002. A edição fechava na noite de sexta-feira, 12 de abril.

Menos de 20 horas antes, a oposição de Chávez - composta por membros do empresariado, em aliança com o alto comando das forças armadas, setores da burocracia petroleira e a Casa Branca - consumara um golpe que o retirara do palácio de Miraflores, acabando com as instituições democráticas do país. Veja não teve dúvidas. Sapecou na capa a chamada: "A queda do presidente fanfarrão". Na página 45, Veja sentenciava:

"Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". Todos sabem o resto da história. Quando chegou às bancas, na manhã de domingo, a edição estava para lá de velha. Milhões de venezuelanos nas ruas e uma inédita divisão do Exército abortaram o golpe. Veja sequer pediu desculpas aos leitores pela barriga, na semana seguinte.

Agora Veja volta à carga na edição desta semana, aliás, primorosa no que revela de sua linha editorial. A capa é eloqüente: "Quem precisa de um novo Fidel?" Encimada pela expressão carrancuda do líder venezuelano, a manchete logo emenda: "Com milícias, censura, intervenção em países vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela uma nova Cuba".

Condinha paz e amor

A entrevista das páginas amarelas é com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. O tom é todo Condinha paz e amor, como se vê pelo trecho seguinte: "Mesmo quando a missão inclui assuntos mais comezinhos, como as encrencas de Hugo Chávez na Venezuela e as hesitações brasileiras na Alca, Condi tem se saído extraordinariamente bem na Operação Simpatia. (...) Pianista, especialista em relações internacionais e fluente em russo, chegou a reitora de Stanford e, embora negue quase que diariamente, o caminho da Casa Branca é uma possibilidade no horizonte".

Não há encrencas COM Hugo Chávez, mas encrencas DE Hugo Chaves, de acordo com o olho da entrevista. O pingue-pongue pauta a edição. Mas a grande arte está lá no meio da revista, sob o espirituoso título: "O clone do totalitarismo". Em seis páginas ficamos sabendo, entre outras coisas, o que se segue. Alguns comentários são colocados abaixo de cada trecho.

"Chávez dá dinheiro e apoio político e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos". Sequer a CIA consegue levantar uma única evidência de que tal fato esteja ocorrendo. "Venezuela substituiu a União Soviética como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo e abastecendo o país de bens de consumo industrializados, tudo a preço simbólico ou a fundo perdido".

Não há preço simbólico ou fundo perdido. Há um acordo, firmado em 30 de outubro de 2000, pelo qual a Venezuela fornece a Cuba 53 milhões de barris diários de petróleo - metade do que a Ilha consome - a preços de mercado, com prazo de carência de até 15 anos. Além de pagar, Cuba compensa as condições de financiamento mediante o fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos, além de remedis, vacina e açúcar. A íntegra do acordo pode ser lida em: http://www.asambleanacional.gov.ve/ns2/leyes.asp?id=175. Seria bom aos elementos responsáveis pelos textos de Veja darem uma lida antes de mentirem aos seus leitores.

"Ele diz a toda hora que os americanos querem mata-lo ou estão prontos para invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi o governo de George W. Bush evitar respostas ás provocações". Até agora o que de real se viu foi o governo Bush patrocinar, entre outras coisas, um golpe de Estado. Uma recomendação aos redatores de Veja: encomendem o recém-lançado livro El código Chávez - decifrando la intervención de los EE. UU. em Venezuela, da advogada estadunidense Eva Golinger (Fondo Editorial Question, 336 páginas). O volume é resultado de uma exaustiva garimpagem em documentos oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, obtidos sob o amparo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom Infromation Act).

Em suas página, a autora desvenda - com fartas provas e evidências - as relações entre a entidade conhecida por National Endowment for Democracy (NED) e a oposição venezuelana, incluindo fornecimento de dinheiro e uso de chantagem política e estímulo à violência. É ressaltado ali que o embaixador estadunidense, Charles Shapiro, foi o primeiro a se reunir com o líder do golpe de 2002, Pedro Carmona. E, entre muito mais, o livro detalha - com os números de matrícula - as embarcações e aviões dos EUA que entraram em águas territoriais venezuelanas, sem autorização, durante o golpe.

A matéria tem muito mais. É impossível dizer onde está a pior parte. É um panfleto, bem ao gosto do que faz na Venezuela a imprensa local. Como ela, Veja não trafega pelos caminhos do apego à realidade. Sua matéria-prima é a ficção e a lorota pura e simples. É parte do novo coro golpista que se avoluma contra um governo democraticamente eleito, tendo como repetidores outros órgãos da imprensa brasileira.

Que os Civita façam isso, é papel deles. Mais uma vez - chamando as coisas pelo nome - é papel de sua classe social. A matéria é assinada por Diogo Schelp, Ruth Costas e José Eduardo Barella. São contratados e fazem o que o patrão manda. Servir bem para servir sempre, parece ser o lema. Talvez acreditem no que escrevam. Mas não deixa de ser deprimente a existência de gente que tope assinar uma peça totalmente editorializada e anti-jornalística, apenas para manter sues proventos no fim do mês. É certo que a vida anda difícil, mas tem um pessoal que pega pesado.

(*) Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior, é autor de A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Fundação Perseu Abramo) e observador, a convite do CNE, no processo do referendo revogatório na Venezuela.
posted by Unknown / 6/04/2005 09:36:00 PM

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