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quinta-feira, outubro 31, 2002
A esquerda no Brasil não será mais a mesma
Agora é definitivo. Após um segundo turno morno, sem maiores embates, a não ser o desespero de José Serra em tentar conseguir votos, e a discrição de Lula para não comprometer sua vitória assegurada, o Brasil terá o primeiro presidente “operário” do maior partido de esquerda do país.
O candidato pelo Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio “Lula” da Silva obteve a maior votação de um presidente no Brasil, perdendo por poucos milhões de votos do recorde norte-americano de Ronald Reagan na década de 80. Após expurgar quase toda a ala radical do PT durante a década de 90, colocando a ala “moderada” ao comando, os petistas, liderados por José Dirceu fizeram alianças de centro com o Partido Liberal (PL) e com alguns setores do PMDB, como Quércia em São Paulo. Tudo isso para poder consolidar o novo projeto petista de governar, mais aberto, com parcas lembranças socialistas.
Essa mudança radical que se deu ao longo dos 22 anos de história do partido foi o fator mais que determinante para ascender Lula ao Planalto, desbancando oito anos de governo neoliberal do PSDB. Os discursos do partido propõem uma mudança para o país, alavancada pelo tão falado “pacto social”, com empresários, sindicalistas, e pessoas dos mais variados setores da sociedade. O problema é que esse pacto na verdade vem com outro nome, também usado pelo presidente eleito, que é “União Nacional”, e significa fazer alianças com a maior parte dos partidos possíveis, um conceito muito usado por políticos da Europa e dos EUA. Isso na verdade comprova a guinada total do partido a uma coligação centro-esquerda, denominadas por eles como “Brasil quer Mudança”, mas que na verdade provocará poucas alterações no quadro atual do país. Exemplo disso é a tão propagada mudança no modelo econômico por Lula, sem especificar o quê e como. E, do outro lado da corda, o futuro presidente diz sim ao mercado e ao FMI (Fundo Monetário Internacional), afirmando que vai honrar os compromissos, seguindo tudo que já foi planejado pelo governo FHC.
Essa coligação centro-esquerda deverá se mostrar pouco eficaz na prática de governar, pois as alianças no Congresso terão que ser muito amplas, podendo desfigurar muitos dos planos assistencialistas idealizados pelo PT de Lula. Sendo que, na verdade, esses programas provocam pouco alívio para grande parte da população que vive desempregada, no maior índice de miseráveis da história do país. Lula e sua “esquerda” ganharam, mas isso significa muito pouco para os eleitores que votaram nele pedindo mudança das atitudes servis e destrutivas em relação ao nosso país, que os governantes conduziram por toda a nossa história, sempre dominada pelas elites, em que as classes menos favorecidas tem pouca, ou quase nenhuma condição de se levantarem, sem constituir alianças duvidosas como Lula fez para vencer o pleito. A esquerda venceu, agora resta saber se ao longo desses quatro anos de mandato petista, essa esquerda se comportará como tal.
segunda-feira, outubro 28, 2002
Um Pequeno Novo Começo
Quando a flor estiver mutilada
Segure-se para não escorregar
Procure não chorar até desmaiar
A tarde cai e os corações se dispersam.
Não deixe a esperança morrer
Não torne as coisas difíceis agora
Não tenha medo de se arrepender
Depois que a luz for embora, procure me esquecer.
Convalesce tão distante de mim agora
Porque estás ausente de minha vida
Venha, se vá, mas não mude o seu ser
Faça aquilo que lhe permitir um dia de céu azul.
Um caminhar pelos jardins num fim de tarde
O entoar da canção, o pássaro branco que voa
Esquecer as doenças, esquecer as tragédias
Ter a mente limpa por um momento
Para não lembrar-se de si e nem da vida
Um instante de paz antes do fim.
Um aceno de adeus pela janela do hospital
Talvez algum dia essa flor desabrochará
E seu coração cerrará as lágrimas de desalento
A dor pelo fim é apenas o sinal de um novo começo
Mais eterno, mais singelo e totalmente sem fim.
28/October/2002.
quinta-feira, outubro 24, 2002
Árbitros paulistas serão “reciclados”
Devido a erros decisivos nas últimas partidas, FPF resolve convocar os árbitros paulistas para fazerem uma reavaliação de suas atuações
Com as falhas clamorosas cometidas pelos juízes paulistas nesse Campeonato Brasileiro, a FPF (Federação Paulista de Futebol) resolveu convocar nessa semana todo o quadro de árbitros de São Paulo para uma reavaliação de critérios e interpretações, a chamada reciclagem. Será feito um trabalho mais intenso com os juízes, com o objetivo de reduzir erros nos jogos do campeonato.
O mais estranho é que a FPF é a que mais investe na qualidade do árbitro de futebol, pois todo ano é feita uma pré-temporada com todos os árbitros, afim de condicionar fisicamente e estabelecer critérios semelhantes na maneira de apitar dos mesmos em todas as disputas do certame. Além disso, de dois em dois meses todos os juízes são chamados para uma reavaliação física e levam consigo um roteiro para manter a forma durante as disputas dos torneios.
O que explicaria, então, tantos erros cometidos por árbitros tão bem preparados? No jogo Palmeiras e Guarani, por exemplo, o árbitro Edílson Pereira de Carvalho apitou um pênalti inexistente para o Guarani, mas em contrapartida, deixou de marcar uma penalidade clara a favor do time campineiro. Já Cléber Abade errou no jogo Santos e São Paulo, ao não expulsar os dois goleiros da partida, Júlio Sérgio por cometer pênalti em cima de Kaká, quando o atacante são-paulino iria fazer o gol, e Rogério Ceni pela quase agressão praticada contra o árbitro da partida. Outro lance desse jogo muito questionado é o terceiro pênalti da partida, em que Reinaldo teria se jogado, e não Léo o derrubado. Na concepção da Federação, esses lances não podem mais acontecer, pois coloca em risco a credibilidade dos árbitros paulistas, que, tirante o árbitro Paulo César de Oliveira, o único elogiado pela crítica esportiva paulista, passa a ser vista com muita desconfiança e temor.
É um importante trabalho realizado pela FPF e que deveria ser seguido por todas as federações, pois não são apenas os juízes paulistas que precisam ser “reciclados”. Todo os árbitros brasileiros precisam de uma renovação considerável, e também uma melhor preparação, quer seja fisicamente, como também nas avaliações interpretativas dos lances mais importantes dos jogos. Um caminho apropriado seria adotar um critério mais conciso entre os árbitros, para evitar maiores discussões e dúvidas quanto a legitimidade de determinados lances, bem como sobre a condição moral de cada juiz e seus comandantes.
segunda-feira, outubro 21, 2002
De que lado a Imprensa está?
Será que a imprensa realmente se importa com o que acontece com nosso país e nosso povo atualmente? Porque é muito fácil a pessoa falar que é contra o modelo atual de governo, que privilegia as empresas e o mercado, relegando a população à miséria. Porém, quando tem a oportunidade de fazer algo, de inserir críticas as mazelas que são feitas contra a população (um exemplo disso é a aprovação da flexibilização da CLT é uma grande derrota para os trabalhadores que poucos comentam), grande parte da mídia nada faz. A maioria da imprensa prostra-se imóvel em frente de seu editor-chefe, ou de quem que mande em qualquer veículo midiático do Brasil, baixa a cabeça e diz sim a tudo que a atrocidade conservadora manda.
Andei a pensar esses dias: se a redação inteira do jornal Folha de São Paulo é petista, porque esse pessoal todo não se propõe a lutar junto e a questionar a forma de se fazer jornal na Folha, totalmente voltado a manutenção do modus vivendi atual? Será realmente que essas pessoas tem algum compromisso com a informação e com o povo? Poderão esses jornalistas contribuírem em alguma coisa para que diminua essa ditadura da informação que fomos submetidos? Claro que há pessoas comprometidas com a massa, mas essas não estão em grandes meios de comunicação, porque não aceitam condições expúrias de total servilismo aos governos internacionais e a manutenção desse massacre pelo qual população brasileira vem sofrendo. Mas fora essas poucas pessoas que sentem a necessidade de criticar efetivamente os rumos atuais de nosso governo, poucos jornalistas tem um comprometimento real com a informação e com a verdade, omitindo-se clamorosamente em muitas situações, apenas para agradar e se manter em favorável ambiente social. Alguém poderia me questionar, dizendo que essas pessoas fazem o que fazem para sobreviverem, pois precisam do dinheiro para se manter. Concordo, algumas pessoas tem essa necessidade, mas algumas, não todas. Eu digo especificamente de jornalistas que tem nome e poder em suas palavras, que já tiveram ou dizem ter um comprometimento com os cidadãos, mas usam isso como fachada para se auto-promoverem. A mídia atual está expurgando todos os conceitos éticos de se fazer jornalismo, aceitando qualquer coisa para se auto-beneficiar.
O que dá para concluir disto é que: ou existe uma omissão dessas pessoas em contribuir com a população em mudar para melhor no país realmente existe, ou então, muitas dessas pessoas estão, na verdade, comprometidas com a classe dominante, com o governo e empresários, tudo para manter hegemonicamente o status quo. Essa situação de grande parte dos ricos concentrando cada vez mais riquezas, gerando desigualdades quase sem reverso, devido a uma inércia proposital de quem orienta os caminhos dessa nação condenada. Esse é um quadro trágico, pois quem poderíamos contar para quebrar essa corrente conservadora que seria a imprensa, está também ligada a essa barbárie manipulatória e controladora dos meios de comunicação e da vida das pessoas. Um exemplo disso é o espaço aberto em tevês de São Paulo para críticas sérias, inclusive de corrupção, mas sem provas, ao governo da Marta Suplicy, sendo que não se vê críticas aos tucanos, referente a administração insípida e inócua de Alckmin no Estado de São Paulo.
quinta-feira, outubro 17, 2002
Uma noite de heróis e guerreiros no Morumbi
Resolvi fazer algo pouco formal hoje. É, isso mesmo, estou definitivamente cansado de seguir padrões, de quebrar a cabeça para achar uma melhor maneira de escrever, na busca incessante e doente pela perfeição. Eu, decididamente, não sou assim.
Mas fiquem tranqüilos, o texto não será tão inútil assim. Apenas estou sem vontade de escrever páginas e páginas de algo dentro do contexto, com Português elogioso, mas sem nenhum alma, emoção ou diversão. Eu cheguei a conclusão que se algo a mim vira responsabilidade, cobrança e não alegria, simplesmente eu não consigo fazer. É, talvez eu tenha chegado a meu denominador comum, encontrei minha resposta. Agora, se alguém tiver a solução disso, favor ligar-me no hospício mais próximo, pois eu estarei lá, à espera de alguma salvação.
Então, resolvi hoje apenas citar o que vejo no jornal de hoje, coisas estranhas ou até mesmo espetaculares. Mas o primeiro caso que vou falar, nem precisaria de nenhuma folha impressa. Aliás, a folha impressa não capta, muito menos transmite a emoção que o som ou a imagem conseguem. Uma página não evidencia os sentidos, a agonia, a alegria, o grito, a lágrima, os desejos e frustrações, de uma partida de futebol. E ontem foi exatamente isso que me ocorreu. São Paulo e Santos. Grande clássico no Morumbi. Depois do tricolor tomar um verdadeiro baile do Santos na primeira etapa e levar aos vestiários um empate, a garra são-paulina (isso mesmo, não é só corintiano que possui isso, muito pelo contrário) se fez presente na volta ao campo de jogo.
Depois de algumas boas jogadas, Kaká aparece em magnífica tabela com Fábio Simplício e é derrubado pelo goleiro Júlio Sérgio: pênalti. Eu, em meio a inexpressiva aula de Inglês Instrumental, vibrava com o gol de Luis Fabiano, abrindo o placar. Logo após, arrancada esplêndida de Kaká, passe magistral para Reinaldo, que tocou no cantinho, sem chances ao goleiro. A bola ainda bateu na trave, antes de cair orgulhosa na rede. Sim, a bola vivia uma noite de gala, histórica para o futebol brasileiro. A seguir, Paulo Almeida caiu na “onda” de Kaká e deu uma cotovelada no menino de ouro do Morumbi, sendo expulso com justiça.
Porém, nos clássicos aquele ditado de que “o jogo só acaba quando o juiz apita” são mais significativos. E o Santos, após um baque natural por causa dos gols sofridos, retomou arte do primeiro tempo. Com jogadas maravilhosas de Robinho, já que Diego passara a ser melhor marcado por Maldonado, e também com os avanços precisos de Léo, os santistas diminuíram o placar com um golaço de Robert. Começara o calvário, meu e de todos os torcedores daquela quarta fantástica. Enquanto isso, mais uma vez a bola sorria ao encaminhar-se para as redes. Já a torcida se misturava em emoções múltiplas, mas o mais emocionante e eletrizante, ainda estaria por vir.
Amelli foi expulso um minuto após o gol santista, desestabilizando o tricolor que passou a ser sufocado em sua área. Nisso, uma linda garota adentra a Topic, senta ao meu lado e eu esqueço por um segundo o jogo. Mas que nada, não tinha como tirar a alma daquele estádio. Passados 30 minutos, Kaká comete pênalti em cima de Léo e é expulso. O tempo pára no estádio Cícero Pompeu de Toledo. E pára também aos que estavam em frente a rádios e com fones de ouvido, como eu, grudados nos ouvidos. Na cobrança, Rogério Ceni se adianta até o meio da pequena área e defende a cobrança mal feita por Diego. O árbitro da partida não repara, mas o bandeirinha invalida a cobrança, justamente por Rogério ter se adiantado. Eu, já na lotação, esperando enchê-la para partir para casa, não conseguia me conter e dava murros na minha mala, e queria gritar, mas não podia. O juiz manda voltar a cobrança. Diego marca e pisoteia em cima do símbolo do São Paulo. Confusão armada. Simplício, são-paulino autêntico, foi tirar satisfações do ocorrido e quase o jogo acaba ali. E era esse mesmo meu pensamento, mas mais na iminência do São Paulo tomar um terceiro do gol, do que o fraco árbitro encerrar a partida por conta da briga generalizada. Nisso a perua já partira com o os estudantes querendo chegar em suas residências, e claro, reparando em mim, pois nessa altura do jogo eu não conseguia me conter. Murros na lataria do carro, coloquei minha cabeça pra fora do carro, olhando o céu, como que tentando acalmar o coração que não agüentava mais tanta emoção. Imagino quem estava no estádio. Quanto sofrimento!
Mas quando todos, como eu, esperavam a virada santista, os anjos tricolores Simplício e Reinaldo foram a frente, fizeram uma tabela fenomenal, e o atual rei do Morumbi (Reinaldo, claro!) é derrubado dentro da área. Mais um pênalti. Eu, totalmente descontrolado na perua, recebendo olhares assustados da garota a meu lado que me fizera esquecer por um segundo o jogo, soltei uma gargalhada alta, quase irônica, já que não podia descarregar os berros desejados. Volto ao jogo. Torcida quieta. Concentração absoluta. Fechei os olhos, enfiei os fones ainda mais no ouvido para tentar ouvir o máximo possível. Um momento religioso, rezas, energia positiva e gol. Sim, gol do São Paulo! Ricardinho batera com perfeição e fora comemorar também no símbolo, ajoelhado ao lado do lateral Gabriel. O narrador grita: “Ricardinho vai no símbolo, se ajoelha e vibra, como quem diz: ‘quem manda aqui é o São Paulo!’”. Confesso que não me contive, dei vários murros no alto, no carro, na bolsa, ria, quase chorando. Sim, a emoção era muito intensa. Imagino quem estava no estádio.
Mas o sufoco não terminara. Santos atacando, jogo prolongado até os 49, por conta das interrupções, e o Santos no ataque. Bola na área, Rogério tira, na sobra, quase gol praiano, desespero total nas arquibancadas e na lotação. Finalzinho de jogo, bola com o Santos, Robinho se joga na área, o juiz nada marca e o São Paulo sai com a bola. Nem precisa mais. É final de jogo. A torcida são-paulina comemora com toda a força e alegria. Jogadores se abraçam como se tivessem conquistado um título. E os santistas saem cabisbaixos, resignados em terem jogado melhor e que mereciam ter vencido. Eu apenas olhava aos céus e agradecia essa magnífica vitória. Cerrava os punhos, balançava-os e gritava por dentro, descarregando como podia aquela emoção pela vitória, que como Ricardinho disse: “As vezes jogar bem apenas não basta, temos que jogar o necessário. Jogamos o necessário e vencemos”.
Uma noite para ficar na história. Uma partida que vai ficar na memória de todos os torcedores, como eu, são-paulinos ou santistas. Realmente um dia de muitos heróis e guerreiros. Os heróis foram os jogadores e os guerreiros, sem nenhuma dúvida, foram e são os torcedores, tanto os que compareceram ao Morumbi, como aqueles torcedores de rádio, como eu.
Out of Control - Closing Time
É, nem imaginava que eu iria escrever tudo isso não. Vou deixar pra comentar o que vejo nos jornais outro dia. Ficou de bom tamanho, eu diria, exagerado, pois nem eu queria escrever tanto assim. Mas serviu para passar a verdadeira emoção da vida. Serviu para mostrar que um jogo de futebol que muitos dizem não mudar a vida da gente, pode sim mudar a vida sim, pode fazer muitas coisas, pode fazer tudo. E mostra outra coisa: que mesmo que eu transcreva cada palavra, cada detalhe do acontecimento de ontem, ou que eu fale ou se gravasse o ocorrido, não conseguiria passar toda a emoção, paixão, sentimento, vibração e energia que eu senti na noite de ontem. Portanto, não nos devamos nos preocupar tanto com a perfeição, pois a mesma é apenas um detalhe em nossa singular e efêmera existência.
sexta-feira, outubro 11, 2002
Letra perdida, mundo perdido?
Olá pessoas
Eu encontrei essa semana em meu caderno uma letra "perdida". Eu a escrevi nesse mês passado, provavelmente na faculdade e acabei esquecendo-a em meio as minhas folhas, sem perceber a contundência e a retundância desses versos, que soam cada vez mais inúteis, em um mundo cada mais mais disperso. Transcrevo-a para vocês, pois, mesmo tendo esa aparente "inutilidade", ela ainda diz o que penso e mostra o que acontece em nossa "sociedade" atual. Será que essa palavra - sociedade - tem seu conceito realmente valendo em nossos dias?
Século XXI
A violência está em toda a parte
A bomba explodiu no pequeno vilarejo
Alguém atirou e matou um cidadão
O político roubou e ninguém viu.
O partido escondeu o desvio na educação
A televisão mostrou mais um dia de desolação
O sangue jorrou em todos os lares
O menino se confundiu e matou seu irmão.
Os presidentes assinaram sua dependência no futuro
Mais uma moça estuprada na periferia
Outro assassinato por policiais destreinados
Miseráveis brigam pelos restos mortais de um mendigo.
Eu não consigo estar com minha paz
Ninguém lhes dá a Tua paz
Corpos espalhados, ossos estraçalhados
Aqui estão os troféus da humanidade destruída.
Sobraram apenas destroços da sociedade no rio poluído
O anjo foi corrompido pela mediocridade
Sem florestas, sem vidas, sem corações
Temos apenas a nós mesmos, o desejo, mas sem liberdade.
05/September/2002.
quarta-feira, outubro 09, 2002
A Música e a Poesia como influentes em nossos estados de ânimo
Platão afirmara em A República que a Poesia e a Música exercem grande influência sobre os nossos estados de ânimo, afetando, positiva ou negativamente, o comportamento moral dos homens. Ao contrário da Pintura e da Escultura que estavam, na visão do filósofo, muito abaixo da verdadeira Beleza e inferior em comparação com a Ciência, pois o material produzido é inconsistente e ilusório. Esse conceito foi plenamente aceito e difundido à época (por volta de III a. C.), intensificando o interesse intelectual pela Arte, e também sobre a importância filosófica e teológica da idéia de Beleza.
Mas será que esse conceito ainda sobrevive em nossa arte contemporânea? Poderíamos contestar as afirmações platônicas no que compete a Pintura e a Escultura, pois o movimento artístico dessas ramificações nos mostraram, pela história, que as mesmas sempre tiveram influência na vida dos artistas e dos que apreciam obras de arte, causando, em muitos, essa “variação nos estados de ânimo”, que Platão falou no caso da Música e da Poesia. Mas será que para essas formas de arte citadas por último causariam outras situações ou Platão acertara em suas convicções?
A uma primeira análise, todos irão concordar que isso verdadeiramente ocorre, pois quando ouvimos uma determinada música, ela atinge a nossa mente e coração, remetendo-nos a algum tipo de felicidade ou tristeza exacerbada. Só que isso depende muito do momento em que a pessoa ouve uma música ou lê alguma poesia. Exemplo: Se eu estiver triste por estar vivendo um final de relacionamento, e ouvir uma música triste, melancólica, que remeta a situações vividas com a pessoa em questão, certamente vai mexer com meu estado de ânimo, me deixando deprimido, inclusive. Mas talvez essa catarse já exista dentro de mim, a música apenas contribui para eu expor meus sentimentos de tristeza. Cabe discutir, portanto, essa questão: A música e a poesia exercem essa influência em nosso estado de ânimo, ou isso ocorre apenas por estarmos já predispostos a essa influência?
Para tentar chegar a essa resposta, primeiro temos que analisar a seguinte coisa: Segundo Nunes (1991), quando ouvimos uma determinada música e choramos não é porque acolhemos a obras através do sentimento e sim por estarmos fazendo uma catarse de nossas emoções. Ele diz mais: “no sentimento, ao contrário, a emoção é despida de seu conteúdo material e elevada a um outro estado: retirado o peso da paixão, permanecem o movimento e as oscilações do sentir em comunhão com o objeto” (NUNES, 1991, p. 388). Isso nos mostra que quando nós temos acesso a alguma obra de arte como a música ou poesia, não estamos “sentindo” a obra por si só, e sim estamos externando nossas emoções, sem trabalhar como sentimento próprio da obra em si. Portanto, sentir a obra de arte é percebê-la em outro nível, não apenas voltado a nossas experiências e sim ao que o artista quis passar com uma música, uma tela, uma escultura ou mesmo uma poesia.
A afirmação de Platão portanto é verdadeira? Por um lado sim, pois, retomando o exemplo, se eu não tivesse previamente triste, eu não começaria a chorar por ouvir uma música. Talvez se eu tivesse plenamente alegre e ouvisse a mesma música, não me afetasse nem um pouco. Mas por um outro lado, se eu tivesse em um estado emocional positivo e ouvisse essa música triste, provavelmente eu não viveria nenhuma variação em meu estado de ânimo, justamente por não estar predisposto a ficar dessa maneira. Por isso, a variação no estado de ânimo se dá quando já estamos com sentimentos parecidos com o que ouvimos e vemos pretende expressar, e que acaba nos lembrando das situações que nos fazem ou fizeram mal ou bem em nossa vida. Isso propõe uma variação no conceito de Platão, pois não há como estipular que todas as pessoas sintam a mesma coisa quando ouvirem uma música ou lerem algum poema, mas também não pode afirmar que alguém altere seu estado emocional com essa música, isso varia de pessoa para pessoa.
Referência Bibliográfica
NUNES, B. Introdução a Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 1991.
sábado, outubro 05, 2002
Amanhã é o Grande Dia
Amanhã é o grande dia. Hoje será o dia mais importante para a democracia brasileira, ou ontem foi a maior votação do Brasil em toda a sua história. Tudo isso, dependendo de quando estiveres lendo o texto e também, dependendo de sua visão para com a democracia e uma de suas ramificações restantes no país que é o voto, de acontecimento no dia 06 de outubro de 2002. Isso mesmo, guardem ardorosamente essa data em suas memórias, assim como guardem com todas as forças nos candidatos escolhidos para todos os cargos públicos, com certeza todos irão precisar futuramente.
Provavelmente ninguém se deu conta, talvez muitos não se importam ou poucos foram informados, mas estas eleições estão em um dos momentos históricos mais cruciais de toda uma vida nacional. Alguém poderia me perguntar porque, e eu responderia que no mínimo essa pessoa chegou ao Brasil hoje e não sabe que teremos eleições. Primeiramente a eleição já coloca o país em um momento importantíssimo de sua história, mas nem é essa questão que quero abordar, até porque todos sabem disso, ou pelo menos deveriam. O porque de ser um momento histórico crucial de nossa vida está extremamente ligado aos oito anos de governo neoliberal que vivemos com Fernando Henrique, e passa pela nossa opção de querer a continuidade disso ou não. Nem sei se vale a pena discutir se o governo foi bom ou não, parto do pressuposto de quem está lendo este texto, tem a mínima condição de discernimento e conhecimento básico para saber o que é esse governo efetivamente e o que ele proporcionou a toda uma população, gerando uma verdadeira exclusão social que está em qualquer esquina, só sendo cínico e cego para não ver.
Esse modelo de governo implantado em nosso país na década passada, totalmente voltado as necessidades do mercado especulativo, pregando a abertura da economia nacional, a descentralização de tudo, bem como a desregulação dos entraves econômicos que impediam, na visão neoliberal, do país crescer, deixou o país, assim como o mundo todo, em um grande impasse. O que seria esse impasse? Não seria, é as mãos atadas de todos as grandes empresas que não tem como investir essa gama toda de “capital cumulativo”, pois esse sistema não permite que isso aconteça sem um prejuízo. Bom, mas se esse sistema é ruim porque rege o mundo atualmente? É ruim no ponto de vista de quem analisa de baixo, os trabalhadores, os estudantes, os militantes da esquerda. Mas na concepção burguesa é cômodo, pois há o mecanismo de se “jogar” dinheiro daqui para lá e vice-versa, especulando e mantendo esse valor consigo. E mesmo se houver perdas, serão mínimas perto do que eles conseguem em cima dos trabalhadores que produzem as coisas.
Alguém provavelmente vai achar que eu estou “delirando” com tudo isso, que sou pessimista, ou radical, etc., “jogando” em mim um monte de rótulos e palavras do senso comum, causada pela hegemonia criada através da mídia. Coisas como: “esses caras de esquerda são loucos, estão errados. São um bando de comunistas e guerrilheiros que querem tomar sua casa”, etc., todas essas canalhices que a classe dominante usa para se manter no poder, mas claro que uma pessoa lúcida e informada fora do eixo perverso da comunicação vai ter um conhecimento, ao menos dos dois lados da moeda para tirar suas conclusões, que acabam, em sua maioria, sendo contra o conservadorismo burguês dominante. E que deriva para uma consciência crítica ao status quo, e a favor a pelo menos uma revisão das práticas governistas. Mas o grande problema da esquerda e de quem discorda dessa situação nesse país é uma seria dúvida e falta de confiança em si mesmos, causada pela assimilação durante anos da idéia imutável de que “não tem outro jeito para o páis, então vamos manter desta forma”. Essa é uma questão delicada e complicadíssima, que pretendo me ater futuramente a maiores detalhes.
Provavelmente agora fique mais claro o porque de eu ter colocado esse momento como um momento crucial da nossa História. Isso porque eu nem citei outros casos como a negociação para a criação da Alca, que já escrevi anteriormente, ou o que eu soube hoje do projeto de privatização do ensino médio e fundamental de todo o país. Nem citei também a ditadura cultural, um verdadeiro massacre que todos nós sofremos todos os dias, através do consumismo e outras formas de manipulação. E por ser esse um momento crucial nós temos o dever de ter ao menos consciência política e saber mais sobre as pessoas que vamos votar, para que não corroboremos com os erros desses futuros governantes ao assumirem seus cargos. Temos uma grande chance de iniciar um processo de luta para a mudança desse quadro, e nem digo que seja o PT essa mudança, mas a escolha em si é um processo importante, mas não somente isso. O que denota que essa luta transcende as eleições, é muito maior e mais trabalhoso.
Por isso mesmo temos possibilidades de fazer movimentos sociais, de lutar e buscar aos poucos alguns avanços, e precisamos porque somos cidadãos e temos esse dever de não apenas olhar para o nosso próprio umbigo, como é outro fator hegemônico hoje em dia, o chamado individualismo. Precisamos criar a consciência de que o nosso voto vale muito sim. E mais, não apenas ele vale muito, como a nossa própria voz, força e pensamento valem muito para que consigamos progressos para melhorar ao menos a qualidade de vida das pessoas, e consigamos dar alguns pequenos passos para um avanço futuro maior e mais digno. Por isso todos devem pensar muito bem em quem vão votar, pois cada voto tem grande conseqüência em nosso futuro. Mas também não podemos parar por aí, devemos cobrar quem elegermos e exigir que as promessas sejam cumpridas e os deveres do Estado sejam mantidos, e também exercidos efetivamente em favor da população. Amanhã é o grande dia, e que esse dia não fique apenas na fantasia e seja, efetivamente, um prenúncio para dias melhores.
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