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domingo, abril 27, 2003

As Várias Facetas do Racismo no Brasil

O racismo no Brasil é enfrentado por muitos como algo inexistente. Fantasiam-se coisas, galhardeiam-se outras, mas ninguém admite o fato: há racismo no Brasil. Pode não ser nada escancarado como em alguns países da Europa, ou mesmo nos EUA, mas trata-se de um outro preconceito, bastante grave, denominado de racismo cordial. Mas o que seria racismo cordial? Seria algo que fica nas entrelinhas de comentários maldosos, maledicências e preconceitos leves, que muitas vezes passam despercebidos.

Muitos bradejam contra os que afirmam existir racismo no Brasil, ao argumentar que é aqui um país de mestiços e da “tolerância racial”. Mas todos fecham os olhos para essa hipocrisia, que fez morada na sociedade brasileira. Exemplo disso é uma pesquisa do Datafolha citada por Marcelo Coelho em artigo na Folha de São Paulo do dia 28/06/1995: “88% dos entrrevistados não-negros afirmam não ter preconceito de cor. Mas 87% desses mesmos entrevistados admitem já ter demonstrado preconceito contra os negros. Portanto, todos afirmam não ser racistas, mas admitem que há racismo, mas quem pratica sempre é o “outro”, nunca a pessoa. Isso revela o brasileiro da seguinte forma: “uma ilha de democracia racial cercada de racistas por todos os lados”.

Há também a diferenciação do racismo da seguinte forma: Discriminação racial: “Negro não entra neste restaurante”. Outra coisa é preconceito: “Ih, é negro... será que o cheque dele tem fundos?’. Uma terceira coisa é o estranhamento: “Como? Um negro? Neste restaurante?”. Essas três possibilidades colocadas pelo jornalista Marcelo Coelho servem de reflexão sobre qual é mais forte em nossa sociedade. Além destes, poderíamos acrescentar o tal racismo cordial, já mencionado acima. Cabem aqui alguns questionamentos: Como o negro encara todas essas formas de racismo? O mesmo se ofende ao racismo cordial? Isso alimenta raiva desses cidadãos ou tolera-se, com aquele dogma de que é apenas uma brincadeira, uma piada inofensiva?

Outra aberração imposta por nossa sociedade é a invenção da cor parda. Muitos, para esconderem sua real cor colocam em censos e fichas de cadastro e de inscrição que são pardos, sendo que são, em sua maioria negros. Essa é uma discussão complicada pois se é uma terra de mestiços, convencionou chamar os filhos dessa mistura de pardos, sem nada que especifique o que realmente o seja. Essa questão da miscigenação é na verdade desculpa para ocultar a diferença entre negros e brancos que existe no Brasil, tanto econômica, política, social, etc.

Isso tudo mostra que, mesmo o país sendo a nação da comunhão entre as raças, as mesmas não convivem harmoniosamente, sobrevivendo através de preconceitos e piadas, discriminação, cordialismo ou mesmo estranhamento. Mas não importa, todas essas formas camufladas de racismo só reafirmam a diferença entre negros e brancos no país, onde os brancos possuem os privilégios, enquanto que os negros só lhe restam essas ofensas e a miséria.


posted by Unknown / 4/27/2003 09:23:00 AM

sábado, abril 12, 2003

Reflexão sobre a matriz discursiva das esquerdas revolucionárias no Brasil, seu papel nos movimentos sociais da década de 70 em São Paulo e os conflitos da esquerda na atualidade – a partir do estudo do capítulo Matrizes Discursivas do Livro Quando Novos Personagens Entraram Cena, de Eder Sader

A “esquerda revolucionária” surgiu em 1969, a partir das lutas ideológicas e posteriormente de rua, ocorridas em anos anteriores. A proposta se vinculava a fazer uma guerrilha armada por todo o Brasil, tanto em áreas urbanas (São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo), quanto rurais (sertão baiano, Araguaia). Seu apogeu se deu por volta de 1971, quando os enfrentamentos se intensificaram, logrando pequenos êxitos. Mas, nessa mesma época de seu ápice ocorreu sua ruína. Isso se deu porque, além da derrota para os militares (que massacraram muitos militantes opositores), surgiram muitas cisões dentro das próprias organizações. Além da crise do pensamento marxista no mundo todo que ocorria naquele momento, sendo derrubado posteriormente pelas teorias liberais, que dominariam nos anos 90 a política e economia do mundiais. Tudo isso desarticulou a esquerda no Brasil, deixando-a totalmente perdida e sem horizonte.

Com essa perspectiva obscura, os movimentos revolucionários mudaram de direção. Ao invés dos enfrentamentos, surge a idéia de trabalhar junto ao proletariado, criando neles uma consciência crítica e de luta, a partir dessa base dos sindicatos e grupos operários. Outra vertente procurou, como Eder Sader cita no livro, uma ligação com as organizações populares nos bairros da periferia paulistana. Uma das formas dessa conexão foi a educação popular, além de trabalhos com a comunidade da Igreja, ou mesmo de forma autônoma. Os métodos de Paulo Freire foram muito discutidos e aceitos, mas a busca pelo intelectual italiano Antonio Gramsci (autor de um estudo crítico sobre o marxismo) nas orientações educacionais foram muito mais profundas.

Os militantes tomaram esse caminho, sem deixar contudo, suas convicções para trás, como afirma Sader: “sem cancelarem estratégias revolucionárias elaboradas nos pequenos círculos conspirativos, esses grupos procuram enraizá-las nas massas, vinculando-se às ações coletivas de resistência, por diminutas que fossem. Pensavam que ao longo dessas experiências – e desde que orientados por suas ‘vanguardas’ – os trabalhadores fariam o aprendizado que os levaria à consciência de classe”. As “vanguardas” na qual refere-se Eder Sader é a própria matriz discursiva do pensamento esquerdista: o marxismo, representado por esses revolucionários que se infiltraram nesses grupos populares, os chamados “movimentos de massa”. Quer dizer, a fonte teórica estaria disponível sempre para os movimentos sociais populares beberem dela e constituírem sua consciência crítica, partindo para a sua luta. Essa foi a possibilidade mais perspicaz – e se enxergarmos os movimentos históricos futuros a mais duradoura – que uma ala política decadente e em crise conseguiu criar para escapar do sufocamento em que vivia, principalmente após sua derrocada e crise no início da década de 70.

O problema é que os embates ideológicos promovidos pelas “estratégias revolucionárias” traziam uma certa confusão, ofuscando o objetivo de reaglutinar os trabalhadores. Mas penso que isso se deu apenas no início, pois, conforme notaríamos melhor ainda no chamado “novo sindicalismo”, a influência, mesmo que em menor grau, dos pensamentos de esquerda, contribuiu para a construção da democracia no Brasil na década de 80. Essa participação se deu principalmente no âmbito da resistência e engajamento, culminando com a formação do maior partido de esquerda do país – o Partido dos Trabalhadores, criado em 1982 – ao englobar membros dos movimentos sindicais, da igreja e dos antigos movimentos revolucionários. Sem descartar sua fonte ideológica, representada por Karl Marx e principalmente por Gramsci em um segundo momento, essas organizações trouxeram todo o suporte necessário na reconstrução de uma esquerda combalida e em conflito.

A Esquerda nos Dias de Hoje

Aliás, conflito que chegou até os dias de hoje. Exemplo claro são os eternos “rachas” e discordâncias dentro do próprio PT. Na década de 90, alguns integrantes do PT foram expulsos ou saíram por vontade própria, e acabaram formando o Partido da Causa Operária (PCO) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). Fato mais atual ainda é a nação brasileira sendo dirigida pela primeira vez pelo PT. Os conflitos agora estão mais acentuados, a grande maioria dos dissidentes e alguns membros do próprio partido (denominados “radicais”) questionam o governo petista, considerando-o não mais como de esquerda. Hoje o PT vive um caos interior, chegando ao cúmulo de pessoas do meio político e intelectual o classificarem como um partido social democrata de centro (como o PSDB era, antes do neoliberalismo de FHC) com algumas discordâncias esquerdistas (que deverão ser expulsas assim que convier).

Isso mostra como são os partidos de esquerda, particularmente no Brasil. Eles estão em constante briga, sem definir questões práticas para resolver os problemas de nossa sociedade. E quando chegam ao poder, impõem políticas mais conservadora que os próprios “direitistas” conseguiriam fazer. Até por sua credibilidade perante o povo (é só ver o status que Lula tem hoje para a população), as medidas são mais fáceis de serem aceitas, em uma certa ilusão de que seria o melhor caminho. Recentemente a Espanha de Fernando Gonzaléz, e em grau diferenciado, (até porque na Inglaterra a esquerda não tem vez) Tony Blair e seu partido trabalhista, que instituíram o capital-canibal, e outros corroboram com esta tese. Cabe a esquerda se renovar e sair do campo intelectual, trazendo os debates para a população, colocando em prática seus pensamentos e resoluções, ao contrário de viver na utopia de um dia ocorrer uma revolução, para instituir algum sistema político de governo mais “justo”. As esquerdas revolucionárias aprenderam que ficar no campo do pensamento ou da radicalização não se constrói muita coisa, e sim o engajamento junto a população podem dar frutos mais consistente e objetivos.
posted by Unknown / 4/12/2003 02:10:00 PM

sábado, abril 05, 2003

Governo e Movimentos Sociais: uma complicada relação

Palestra na Unicsul deixa clara a posição desconfortante que os movimentos sociais vivem com a prefeitura sendo dirigida pelo PT, partido que sempre esteve unido a esses movimentos

Os movimentos sociais e o bairro São Miguel Paulista estiveram em questão na Unicsul – Universidade Cruzeiro do Sul. Na última sexta-feira de março (28/03) o professor “Toninho” do Curso de Comunicação Social da Universidade organizou uma palestra seguida de debate sobre esses movimentos e sua atuação junto ao governo. O evento contou com a presença do Subprefeito de São Miguel Adalberto Dias, Dalcides Neto, representante do Movimento de Moradia e Claudia Afonso do Movimento de Saúde, ambos da Zona Leste e dos alunos do terceiro ano do curso de Jornalismo da Unicsul.

A proposta era refletir os movimentos sociais a partir do livro Quando Os Novos Personagens Entraram Em Cena de Eder Sader, que relata esses movimentos emergidos na década de 70, indo contra a corrente aquiescida que estagnava o pensamento crítico e engajado naquela época. Além disso, relacionar os movimento sociais com a condução do governo atualmente, buscando a posição do representante do município quanto a essa situação. Outra sugestão foi o debate das melhorias na área dessa subprefeitura.

Mas o que se viu foi uma exibição de “façanhas” da prefeitura e um jogo de compadres dos representantes do movimento. O primeiro a se pronunciar foi o subprefeito de São Miguel Adalberto Dias. Acompanhado por um laptop, ele limitou-se a exibir seus projetos realizados, como obras no viaduto Marechal Tito, ou na área social, com a merenda escolar de qualidade nas escolas e a reurbanização das áreas irregulares. Dias defendeu os jovens com uma frase infeliz, justificando as atitudes dos que roubam com um motivo fútil: “Ele mete o cano em alguém porque precisa estar na moda”.

O subprefeito omitiu todo seu passado nos movimentos sociais, privando os que o assistiam de contar suas experiências e seus pensamentos. O mesmo limitou-se a dizer que os movimentos devem trabalhar em separado do governo, mas reivindicando sempre para o Estado realizar as obras necessárias para a sociedade. Quando na verdade não seria tão necessário vigiar o governo, já que sua função é exatamente essa.

Os representantes dos movimentos contaram um pouco da história de suas lutas, que já existem há mais de década. Claudia Afonso mostrou toda a luta do movimento em busca de trazer a saúde para a Zona Leste, resultando no fato dessa região ter a maior concentração de equipamentos hospitalares de São Paulo. Dalcides Neto colocou como surgiu o movimento, a partir da pouca atenção por parte das autoridades quanto a habitação.

O Movimento de Moradia defendeu uma política de habitação, sem mensurar qual, colocando a falta de moradia como um dos pontos cruciais para os problemas vividos pelo trabalhador. Como disse Neto, isso ocorre pelo baixo salário que impossibilita o pagamento do aluguel, impondo ao trabalhador morar embaixo da ponte. Para combater esse flagelo, o movimento de moradia organiza mutirões, unindo as pessoas para um bem comum, construindo suas próprias casas com ajuda do governo. Já a luta do movimento da saúde é por uma atuação mais firme do SUS – Sistema Único de Saúde – e também em trazer médicos para trabalharem na periferia.

Sobre a relação dos movimentos sociais com o governo, ambos limitaram-se a concordar com a posição do subprefeito. Para eles a ação dos movimentos tem que ser desvinculada do governo. Não foi aproveitada a presença do subprefeito para questionar suas realizações na habitação e na saúde, deixando claro o apoio ao governo. Tanto que, mesmo com os questionamentos dos alunos, pouco foi esclarecido, contrapondo aos “slides” apresentados no começo da palestra. Exemplo disso ocorreu quando a aluna Rita indagou o subprefeito sobre um córrego da região abandonado, segundo informações de um jornal local. O subprefeito se irritou, e em um discurso caloroso não respondeu a colocação da aluna.

O que foi presenciado na palestra coloca todos em situação desconfortante, deixando um aspecto bastante claro. Quando um partido de oposição chega ao poder, seus antigos aliados, que agora estão do lado oposto pois prosseguiram na luta por seus interesses, são mais tolerantes. Isso ajuda o a condução do governo, mas pode causar uma cumplicidade, pois não há uma posição crítica definida dos movimentos sociais sobre quem está no poder.
posted by Unknown / 4/05/2003 11:51:00 PM

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