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terça-feira, setembro 07, 2004

O Mito da Globalização e Suas “Possibilidades”*

Vivemos num mundo fabuloso. Os meios de comunicação passam uma visão extremamente otimista em relação à realidade que vivemos com a globalização tal qual esta é imposta hoje. Prega-se o discurso único, do capital, do consumo, da abertura de mercados, dos investimentos externos, da competitividade, do individualismo radicalizado. Mas cresce também a concentração de renda, do conhecimento, da tecnologia, as guerras, a intolerância, relegando uma quantidade enorme de pessoas a acompanhar à distancia a espetacularização de uma “sociedade da informação”, que na verdade vive totalmente desinformada.

Com o advento massivo da internet no início da década passada no Brasil, iniciou-se o discurso que todos teriam acesso como o que ocorre em várias partes do mundo. Isso daria a chance, em tese, de colocar informação na rede, e desenvolver o conhecimento intelectual das pessoas, bem como seu poder de mobilização. Isso seria mais uma decorrência dos avanços tecnológicos que a humanidade tem caminhado, inovando as técnicas existentes e contribuindo para uma evolução qualitativa da sociedade.

Essa democratização da informação, mencionada acima, como crescimento das tecnologias é um belo discurso, a ser jogado fora numa primeira análise. Grande parte das pessoas mal sabe ler e compreender um texto, muito menos possui a técnica de manusear corretamente um terminal de computador e saber as formas de fazer pesquisa objetiva na internet. Certamente o aproveitamento dessa pessoa em frente a um computador – caso da maioria dos brasileiros, por exemplo – será pior do que outra que domina a técnica. E, partindo da perspectiva de Milton Santos que quem controla a técnica tem a política em suas mãos...

Outro fato está no monopólio da comunicação, estabelecido pela burguesia nacional – e em breve, a internacional, por conta da abertura para o capital externo nas mídias brasileiras – que detém os meios que propagam a (des)informação no país e impedem o surgimento de formas alternativas de expressão. Isso ocasiona uma padronização de idéias, motivada por um discurso apregoado por veículos que soltam em uníssono seu amém ao códice neoliberal imposto pelos investidores externos e acatado pela classe dominante como se fosse a salvação. Talvez seja a deles, não a do povo.

Outro fato encoberto é esse chamado “avanço tecnológico”, que na verdade concentra o desenvolvimento intelectual nas mãos de poucos cientistas, atrelados a um motor único que são as grandes potências que investem em busca de maior poderio militar e conseqüente força para se sobrepor a nação menores. Algo como um deja vú de tempos antigos do Império, em que as metrópoles disputavam a tapa (na verdade, a sangue e baionetas) por colônias na África, América Latina, ilhas da Ásia e Oceania e comprovavam sua força com o maior número de terras dominadas.

Num mundo onde tudo é ideologia, como dizia Milton Santos, qualquer discurso contra a homogeneização globalizante é desqualificado. Afinal, alguns gurus da nossa intelectualidade e do jornalismo afirmam que chegou “o fim da História” (caso do japonês Francis Fukuyama), “a morte do socialismo”, “o fim das utopias”, e que nosso destino agora é viver o capitalismo em sua vertente neoliberal, como se esse imperativo fosse algo para ser bem recebido e aceito.

É preciso rachar e eliminar esse duo de pensamento e submissão. Faz-se necessário criar um novo discurso para uma nova sociedade, como dizia Milton Santos, propondo alternativas melhores para a maioria da população e não apenas para uma pequena parte que acumula as riquezas e as técnicas do planeta.

Para isso, é preciso inverter o cartel da comunicação, democratizando os meios de acesso à informação e mesmo a construção dela. Outra coisa seria a capacitação dos cidadãos a utilizar de forma proveitosa a internet e suas bases de dados. Democratizar não é apenas criar telecentros – caso da Prefeitura de São Paulo –, é dar acesso qualificado e aprendizado a todas as pessoas, pois numa sociedade dita democrática – outro mito da globalização que precisa ser destruído – não pode haver tais diferenças.

A única forma possível de realizar isso de forma eqüitativa é utilizar o capital em favor do interesse público. Ou seja, deve-se quebrar a lógica da acumulação do lucro que se faz presente nas empresas e dispor esse dinheiro em benefício de toda a sociedade. E além do dinheiro, é preciso socializar a técnica, o conhecimento, a informação, dando um sentido de consciência quanto à importância de cada pessoa na construção de uma nova possibilidade de sociedade, mais justa e mais humana. Esse é o desejo de muitos há séculos, mas está na hora de isso avançar de uma possibilidade para uma realidade.

* texto escritono primeiro semestre deste ano para um trabalho do curso de Comunicação Social-Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul.
posted by Unknown / 9/07/2004 07:42:00 PM

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