Textos, artigos, poesias, etc



domingo, junho 27, 2004

"Atlas Cerebral" traz nova luz para compreender o cérebro humano

Mapa do cérebro humano permite acessar detalhes da estrutura e do funcionamento do cérebro em quatro dimensões

Uma das pesquisas que têm mexido com a comunidade científica nos últimos tempos é sobre o mapa do cérebro humano. Cientistas de seis países estão desenvolvendo um mapa que pode revelar como funcionam as áreas do cérebro, que vão da linguagem ao movimento. Mais que isso, com o estudo, será possível identificar a diferença entre os cérebros considerados saudáveis dos pacientes com o Mal de Alzheimer, e até mesmo com esquizofrenia.

Os cientistas estão montando um banco de dados, a partir de imagens de 7 mil pessoas, para estabelecer uma “média” do comportamento cerebral, e aí saber como o mesmo se comporta, saudável ou não. Isso porque, como disse o responsável pelo estudo, o chefe do Departamento de Neurologia da Ucla (Universidade da Califórnia, nos EUA), Doutor John Mazziota, em declaração agência de notícias BBC (Companhia Britânica de Transmissão), “não há dois cérebros iguais”.

Cada cérebro se desenvolve de maneira distinta um do outro. No caso das áreas de linguagem, por exemplo, esta pode estar em diferentes lugares do cérebro de uma pessoa para outra. “A execução dessas funções envolve um complexo circuito cerebral”, afirma Mazziota.

Por isso, o chamado “atlas cerebral” é importante, por permitir acessar detalhes da estrutura e do funcionamento do cérebro, e em quatro dimensões: as três espaciais e também a dimensão temporal. Com a união dessas informações, será possível entender como o cérebro humano funciona e como evoluem os neurônios com problemas de degeneração.

Envolvido na pesquisa, o diretor do laboratório de imagens neurológicas da Ucla, Arthur Toga, ressalta que o mapa deverá ser usado para comparações com pacientes. E cita o exemplo da degeneração ocasionada pelo Mal de Alzheimer para futuras análises: “Nós sabemos como um cérebro com Alzheimer se comporta, mas o que nós realmente queremos é descobrir como um cérebro com Alzheimer era antes de a doença se manifestar”, ressalta.
posted by Unknown / 6/27/2004 12:24:00 PM

sexta-feira, junho 25, 2004

Taça UEFA começa a 13 de Julho

Já decorreu o sorteio para a primeira pré-eliminatória da Taça UEFA 2004/2005.

50 equipas
50 clubes vão participar nesta eliminatória, divididos em três grupos. Norte da Europa, Sul e Leste. Entre os jogos que foram sorteados destaca-se o confronto entre o Östers IF's, vencedor do prémio Fair-Play, da Suécia, e o clube galês Total Network Solutions FC. Os campeões de San Marino o S.S. Pennarossa vão encontrar o NK Željeznicar da Bósnia-Herzegovina.

Futuras eliminatórias
Os 25 vencedores da primeira pré-eliminatória que passarem à segunda fase, irão encontrar outros 39 clubes, com entrada directa nessa fase. Dessa jornada sairão 32 clubes, a que se juntam outros 32, para disputarem a primeira eliminatória da prova.


Taça UEFA primeira pré-eliminatória
Primeira mão: 15 Junho 2004, Segunda mão: 29 Junho 2004


FK Sileks (MKD) v NK Maribor (SLO)
NK Primorje (SLO) v Marsaxlokk FC (MLT)
NK Željeznicar (BHZ) v S.S. Pennarossa (SMR)
KS Dinamo Tirana (ALB) v FC Otelul Galati (ROM)
FK Modrica (BHZ) v FC Santa Coloma (AND)
AC Omonia (CYP) v FK Sloga Jugomagnat (MKD)
FK Partizani (ALB) v Birkirkara FC (MLT)
FC Illychivets Mariupil (UKR) v FC Banants (ARM)
FK Shamkir (AZE) v FC Tbilisi (GEO)
FC BATE Borisov (BLR) v FC Dinamo Tbilisi (GEO)
FC Shirak (ARM) v FC Tiraspol (MOL)
FC Nistru Otaci (MOL) v FC Shakhtyor Soligorsk (BLR)
FC MIKA (ARM) v Budapest Honvéd FC (HUN)**
FK Dukla Banská Bystrica (SVK) v FK Karabakh (AZE)
FC Levadia Tallinn (EST) v Bohemian FC (IRL)***
Haverfordwest County AFC (WAL) v FH Hafnarfjördur (ISL)
Östers IF (SWE) v Total Network Solutions FC (WAL)
Portadown FC (NIR) v FK Žalgiris Vilnius (LIT)
B68 Toftir (FAR) v FK Ventspils (LAT)
FC Haka (FIN) v FC Etzella Ettelbrück (LUX)
FK Ekranas (LIT) v F91 Dudelange (LUX)
FC Vaduz (LIE) v Longford Town FC (IRL)
B36 Tórshavn (FAR) v FHK Liepajas Metalurgs (LAT)
AC Allianssi (FIN) v Glentoran FC (NIR)
ÍA Akranes (ISL) v FC TVMK Tallinn (EST)


** Primeira mão jogada a 13 de Julho
*** Segunda mão jogada a 27 de Julho


Retirado de Uefa.com
posted by Unknown / 6/25/2004 04:16:00 PM

sábado, junho 19, 2004

A Retomada Antropofágica da Tropicália

Comandados por Caetano Veloso e Gilberto Gil, movimento tropicalista revolucionou a forma de encarar e pensar arte e cultura no Brasil, em plena ditadura militar

A Tropicália surgiu da necessidade de alguns músicos e artistas a saírem um pouco da mesmice que assolava a música brasileira, mesmo que não sendo musicalmente falando, porque a Bossa Nova era um movimento bastante interessante, mas Caetano e seus “parceiros” queriam mais liberdade em criar, e também de criticar, porém, em uma visão mais estética, analisando esses fatores e a implicação deles na sociedade da década de 60, muito atribulada por conta da Ditadura Militar.

Porém, mesmo encontrando muito sucesso nas camadas populares, bem como em muitos críticos, o tropicalismo teve muita resistência dos movimentos estudantis que analisavam aquilo como uma afronta, como algo vindo dos Estados Unidos para impor a dominação aos brasileiros, e atacavam os tropicalistas de todas as formas. Quem não gostava dessa liberdade de expressão “exacerbada” eram os militares, que vigiavam muito de perto esses artistas.

A Tropicália retomou o que os modernistas começaram a fazer e que ninguém, nunca havia tido coragem de tentar: usar de elementos dos mais variados, dos arranjos mais diferentes, desde o clássico ao baião, utilizando também elementos pop, usando nas letras, diferentes colagens visuais e discussões estéticas, além de pensamentos revolucionários, ressaltando o lado cafona brasileiro, tudo aquilo que as pessoas viviam tentando esquecer, deixar de lado, fazendo com que muitos não entendessem a proposta revolucionária e importante,muitos anos à frente, que os tropicalistas faziam. O que eles fizeram foi realmente mexer na ferida da sociedade daquela época, discutindo todos aqueles assuntos e, até por isso, sofrendo sérias represálias dos militares, culminando,não apenas por isso, com o fim do movimento mais importante das últimas décadas.

Uma Breve História da Tropicália

Caetano Veloso, cantor, compositor e um dos principais ícones do movimento, definira a Tropicália como o avesso da Bossa Nova. Assim, é o “movimento que, ao longo de 1968, revolucionou o status quo da música popular brasileira”(CALADO, C. 2002). Além de Caetano, quem também participou ativamente do movimento tropicalista foram os compositores Gilberto Gil e Tom Zé, os letristas Torquato Neto e Capinam, o maestro e arranjador Rogério Duprat, o trio Mutantes e as cantoras Gal Costa e Nara Leão. Diferentemente da Bossa Nova, que introduziu uma forma original de compor e interpretar, a Tropicália não pretendia sintetizar um estilo musical, mas sim instaurar uma nova atitude: sua intervenção na cena cultural do país foi, antes de tudo, crítica.

Segundo Calado, a intenção dos tropicalistas não era superar a Bossa Nova, da qual Caetano, Gil, Tom Zé e Gal foram discípulos assumidos, especialmente do canto suave e da inovadora batida de violão de João Gilberto, conterrâneo dos quatro. No início de 1967, esses artistas sentiam-se sufocados pelo elitismo e pelos preconceitos nacionalistas que dominavam a MPB. Depois de várias discussões, concluíram que para refrescar a cena musical do país, a saída seria aproximar de novo a música brasileira dos jovens, que se mostravam cada vez mais interessados no pop e no rock dos Beatles, ou mesmo no iê-iê-iê que Roberto Carlos e outros ídolos “brazucas” exibiam no programa de TV da Jovem Guarda. Argumentando que a música brasileira precisava se tornar mais "universal", Gil e Caetano tentaram conquistar adesões de outros compositores de sua geração, como Dorival Caymmi, Edu Lobo, Chico Buarque de Hollanda, Paulinho da Viola e Sérgio Ricardo. Porém, a reação desses músicos mostrou que, se aderissem mesmo à música pop, tentando romper a hegemonia das canções de protesto e da MPB politizada da época, os futuros tropicalistas teriam que seguir sozinhos.

As Primeiras Canções e suas Repercussões

Consideradas como marcos oficiais do novo movimento, as canções “Alegria, Alegria” (Caetano Veloso) e “Domingo no Parque” (Gilberto Gil) chegaram ao público já provocando muita polêmica, por meio do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em outubro de 1967. As guitarras elétricas da banda argentina Beat Boys, que acompanhou Caetano e a atitude roqueira dos Mutantes, que dividiu o palco com Gil, foram recebidas com vaias e insultos pela “linha dura” do movimento estudantil. Para aqueles universitários, a guitarra elétrica e o rock eram símbolos do imperialismo norte-americano e, portanto, deviam ser expulsos do universo da música popular brasileira. No entanto, não só o júri do festival, mas grande do público aprovou a nova tendência. A canção de Gil saiu como vice-campeã do festival, que foi vencido por “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam). E, embora tenha terminado como quarta colocada, “Alegria, Alegria” tornou-se um sucesso instantâneo nas rádios do país, levando o compacto simples com a gravação de Caetano a ultrapassar a marca de 100 mil cópias vendidas.

A repercussão do festival estimulou a gravadora Philips a acelerar a produção de LPs individuais de Caetano e Gil, que vieram a ser seus primeiros álbuns tropicalistas. Se Gil já contava nos arranjos com a bagagem musical contemporânea do maestro Rogério Duprat, para o disco de Caetano foram arregimentados outros três maestros ligados à música de vanguarda: Júlio Medaglia, Damiano Cozzela e Sandino Hohagen. Coube a Medaglia o arranjo da faixa que Caetano compusera como uma espécie de canção-manifesto no novo movimento.

Influenciado pelo delirante Terra em Transe, filme de Glauber Rocha, assim como pela peça O Rei da Vela, do modernista Oswald de Andrade, na montagem agressiva do Teatro Oficina, Caetano sintetizou na canção “Tropicália”, conversas e discussões estéticas que vinha tendo com Gil, com seu empresário Guilherme Araújo, com a cantora (e sua irmã) Maria Bethânia, com o poeta Torquato Neto e o artista gráfico Rogério Duarte. O resultado foi uma espécie de colagem poética, que traçava uma alegoria do Brasil através de seus contrastes. Quem sugeriu o título “Tropicália” para essa canção foi o fotógrafo (mais tarde produtor de cinema) Luís Carlos Barreto, que ao ouvi-la, no final de 1967, lembrou da obra homônima que o artista plástico Hélio Oiticica expusera no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, alguns meses antes.

Segundo Calado, o movimento só passou a ser chamado de tropicalista a partir de 5 de fevereiro de 1968, dia em que Nelson Motta publicou no jornal Última Hora um artigo intitulado "A Cruzada Tropicalista". Nele, o repórter anunciava que um grupo de músicos, cineastas e intelectuais brasileiros fundara um movimento cultural com a ambição de alcance internacional. O efeito foi imediato: Caetano, Gil e os Mutantes passaram a participar com freqüência de programas de TV, especialmente do comandado por Abelardo “Chacrinha” Barbosa, o irreverente apresentador que virou uma espécie “ícone alegórico” do movimento.

Panis et Circenses

Em maio de 1968, o estado-maior tropicalista gravou em São Paulo Tropicália ou Panis et Circenses, álbum coletivo com caráter de manifesto. Caetano coordenou o projeto e selecionou o repertório, que destacou canções inéditas de sua autoria, ao lado de outras de Gil, Torquato Neto, Capinam e Tom Zé. Completavam o elenco os Mutantes, Gal Costa e Nara Leão, além do maestro Rogério Duprat, autor dos arranjos.

O disco foi lançado em agosto do mesmo ano em debochadas festas promovidas em gafieiras de São Paulo e Rio de Janeiro. Canções como “Misesere Nobis” (Gil e Capinam), “Dindonéia” (Caetano e Gil), “Parque Industrial” (Tom Zé) e “Geléia Geral” (Gil e Torquato) compunham o retrato alegórico de um país ao mesmo tempo moderno e retrógrado.

Ritmos como o bolero e o baião ao lado da melodramática canção “Coração Materno” (Vicente Celestino), recriada por Caetano no disco, indicavam o procedimento tropicalista de enfatizar a “cafonice, o aspecto kitsch da cultura brasileira” (CALADO, C. 2002). Afinados com a contracultura da geração hippie, os tropicalistas também questionaram os padrões tradicionais da chamada “boa aparência”, trocando-a por cabelos compridos e roupas extravagantes.

"O tropicalismo teve por base a tentativa de revelar as contradições próprias da realidade brasileira mostrando o moderno e o arcaico, o nacional e o estrangeiro, o urbano e o rural, o progresso e o atraso, em suma, o movimento não chegou a produzir uma síntese destes elementos, mas buscou traduzir a complexidade fragmentada da nossa cultura" (BONDAN, M. P. 2000).

Buscando “mastigar” e “triturar” tudo, o movimento liderado por Gil e Caetano, busca incorporar à MPB elementos da música pop (como o uso de guitarras), sem esquecer aqueles nomes que prestavam um importante papel no movimento evolutivo de nossa música. “Liberdade” é a palavra fundamental do movimento.

Ascensão, Reação e Queda do Movimento Tropicalista

Com tantas provocações ao status quo, as reações à Tropicália tornaram-se cada vez mais contundentes. Num debate organizado pelos estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, em junho de 1968, Caetano, Gil, Torquato Neto, e os poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari, que manifestavam simpatia pelo movimento, foram hostilizados com vaias, bombinhas e bananas pela “linha dura” universitária. O confronto foi mais violento ainda durante o III Festival Internacional da Canção, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, em setembro. Ao defender com os Mutantes a canção “É Proibido Proibir”, que compôs a partir de um slogan do movimento estudantil francês, Caetano foi agredido com ovos e tomates pela platéia. O compositor reagiu com um discurso, que se transformou em um histórico happening: "Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?", desafiou o bravo baiano.

Calado (2002) conta que, ainda em outubro, os tropicalistas conseguiram um programa semanal na TV Tupi. Com roteiro de Caetano e Gil, “Divino, Maravilhoso” contava com todos os membros do grupo, além de convidados como Jorge Ben, Paulinho da Viola e Jards Macalé. Os programas eram concebidos como happenings, repletos de cenas provocativas. A influência do movimento também ficou evidente em dezenas de canções concorrentes no IV Festival de Música Popular Brasileira, que a TV Record começou a exibir em novembro. A decisão do júri refletia o grande impacto da Tropicália somente um ano após o lançamento de suas primeiras obras: “São, São Paulo”, de Tom Zé, foi a canção vencedora; “Divino, Maravilhoso”, de Caetano e Gil, ficou em terceiro lugar; “2001”, de Tom Zé e Rita Lee, foi a quarta colocada.

Nessa época, com o endurecimento do regime militar no país, as interferências do Departamento de Censura Federal já haviam se tornado costumeiras; canções tinham versos cortados, ou eram mesmo vetadas integralmente. A decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, oficializou de vez a repressão política a ativistas e intelectuais. As detenções de Caetano e Gil, em 27 de dezembro, precipitaram o “enterro da Tropicália, embora sua morte simbólica já tivesse sido anunciada, nos eventos do grupo” (CALADO, C. 2002).

Para concluir, apesar de ter se revelado tão explosiva quanto breve, com pouco mais de um ano de vida oficial, a Tropicália seguiu influenciando grande parte da música popular produzida no país pelas gerações seguintes. Até mesmo em trabalhos posteriores de medalhões da MPB mais tradicional, como Chico Buarque e Elis Regina, pode-se encontrar efeitos do "som universal" tropicalista. Descendentes diretos ou indiretos do movimento continuaram surgindo em décadas posteriores, como o cantor Ney Matogrosso e a vanguarda paulistana do final dos anos 70, que incluía Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e o Grupo Rumo. Ou, já nos anos 90, o compositor pernambucano Chico Science, um dos líderes do movimento Manguebeat, que misturou pop, eletrônico, hip-hop, hardcore, com ritmos folclóricos locais, como a embolada. Ou ainda um grupo de compositores e intérpretes do Rio de Janeiro, como Pedro Luís, Mathilda Kóvak, Suely Mesquita e Arícia Mess, que lançaram em 1993 um projeto com pose de movimento intitulado Retropicália.

Mas o que foi o Tropicalismo? - Uma Discussão Estética

O tropicalismo, como vimos, é um movimento cultural iniciado na década de 60, que atingiu, posteriormente, outros setores artísticos. Nascido sob a impressão da antropofagia oswaldiana, teve em Torquato Neto um dos seus mais atuantes e radicais integrantes:

"A Tropicália, no sentido da música, foi uma radicalização tão grande quanto a poesia concreta também foi no sentido da poesia. Quer dizer, a gente mexeu exatamente com a forma da música brasileira. E eu acredito sinceramente que isso é a coisa importante em qualquer processo cultural. Ou você mexe com a forma ou não mexe com nada" (NETO, T., apud KRUEL, K., 2001).

Caetano Veloso já definiu o tropicalismo como um neo-antropofagismo. Antropofagismo é mais um ciclo dentro do segundo momento modernista iniciado em 1928 por um grupo de intelectuais paulistas capitaneados por Oswald de Andrade. O movimento, visava a captar “debaixo de um Brasil de fisionomia externa uma outra nação de enlaces profundos, ainda incógnita” (BOPP, R., apud KRUEL, K., 2001). Esta subcorrente do modernismo deveria descer às fontes genuínas, ainda puras, para captar germes de renovação e deveria ainda retomar este Brasil subjacente, de alma embrionária, congregados de assombros, e procurar alcançar uma síntese cultural própria, com maior densidade de consciência nacional.

A “Tropicália”

Uma das fontes inspiradoras do movimento foi a exposição Tropicália que o artista plástico Hélio Oiticica realizou em abril de 1967 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, tendo como objetivo principal,

"contribuir fortemente para essa objetivação de uma imagem brasileira total, para a derrubada do mito universalista da cultura brasileira, toda calcada na Europa e na América do Norte, num arianismo inadmissível aqui: na verdade, quis eu com a Tropicália criar o mito da miscigenação - somos negros, índios, brancos, tudo ao mesmo tempo - nossa cultura nada tema a ver com a européia, apesar de estar hoje a ela submetida: só o negro e o índio não capitularam a ela. Quem não tiver consciência disto que caia fora" (OITICICA, H., apud KRUEL, K., 2001).

A estética tropicalista trata, com muito humor e ironia, as disparidades sociais advindas do desenvolvimento desigual do capitalismo. Na construção poética novo/velho (música pop e Carmen Miranda), rústico/moderno (azeite-de-dendê e Formiplac), Iracema/Ipanema, bossa/palhoça, reside ainda a contraposição de valores que se revestem, aos olhos do espectador, de outros significantes, ampliando o alcance da ação critica. Mas é também no contraste entre o arcaico e o moderno que encontramos a metáfora substituindo e aludindo à relação de dependência entre desenvolvimento e subdesenvolvimento.

Segundo Kruel (2001), se o movimento tropicalista, que, a todo momento, trabalhou com o binômio estética/política objetivava mostrar as contradições do nosso país e a relação de dependência, realmente conseguiu. Veja, por exemplo, em Tropicália, a imagem “cinematográfica” (um dos elementos estéticos da Tropicália) que Caetano cria: depois de destacar a grandiosidade da arquitetura urbana, símbolo da frase desenvolvimentista do governo Kubitschek (“monumento do Planalto Central do País”), o autor, numa frase lapidar, nos dá a exata idéia das contradições e do nosso subdesenvolvimento ao anunciar que “no joelho uma criança sorridente, feia e morta estende a mão.”

Na verdade, esta “contraposição de elementos da cultura brasileira” (KRUEL, K. 2001) aproxima-se muito daquilo que Oswald de Andrade já havia feito no Manifesto Pau-Brasil. Até aí, nada a contestar. A própria liderança do movimento tropicalista teve esta intenção e reconheceu que ele era a retomada oswaldiana, recriado e atualizado na linguagem do meio urbano-industrial. A televisão, a fórmica, a arquitetura arrojada de Brasília, o avião, a modernidade de Ipanema, a bossa nova, o plástico, a guitarra elétrica, a música pop, o azeite-de-dendê, Iracema, Carmen Miranda, a dança do bumba-meu-boi, a palhoça e o namorinho de portão, não poderiam mesmo deixar de ser mencionados e contrapostos.

Certa ocasião, em entrevista ao Jornal do Brasil, Caetano reconheceu que o
tropicalismo é uma tentativa de superar, o nosso subdesenvolvimento, partindo exatamente do elemento cafona de nossa cultura, difundindo e fundindo ao que houvesse de mais avançado industrialmente, como as guitarras e a roupa de plástico.

Assim, a estética tropicalista, em música popular, não se reduz a performances do corpo e das indumentárias. Não é apenas chanchada, deboche, colagens. É mais que isto: é tudo isto associado a um projeto cerebralmente elaborado de intervenção no cenário brasileiro, ainda majoritariamente voltado para o agrário, para o romântico, para o tropical-turístico “para inglês ver”. Para quê? Para inserir o país, artisticamente, num contexto urbano-industrial de novos signos e novas linguagens.

"Não é à toa que as canções emblemáticas do movimento, como “Alegria Alegria”, “Domingo no Parque”, “Tropicália” e “Geléia Geral” têm letras e melodias que jogam com colagens de fragmentos musicais e verbais explorando inter-relações numa malha de referências caleidoscópicas" (KRUEL, K., idem).

Resultado: belas e gostosas canções que, ainda por cima, se revelam muito melhores quando analisadas, por exemplo, com a sofisticação das teorias cinematográficas (eisensteiniana, godardiana, etc). Ou às luzes e cores do auxílio luxuoso das abordagens semióticas.

Pois, para se chegar até as possibilidades destas análises, muito sangue rolou nas sessões de tortura promovidas nos subsolos do regime militar. O ano de 1968 exigia uma atuação política direta e incisiva contra a ditadura. Na MPB o novo momento histórico dividiu militantes que confundiam política com estética - ainda que uma e outra estejam intimamente ligadas, são distintas e nunca interdependentes. Muita confusão rolou entre grupos que opunham ingenuamente o violão à guitarra. O cantor Geraldo Vandré logo se estrilou com Caetano. É compreensível: duas visões de Brasil se defrontavam nos palcos e platéias dos festivais, nos programas de tevês, na disputa pelo público universitário. Enquanto os conservadores proclamavam, entre outras coisas, a manutenção nacionalista de um Brasil idealizado e idealista, os tropicalistas colocavam no mesmo caldeirão o antigo e o novo, o agrário e o urbano, o bolero e o rock e conclamavam para a festa da deglutição antropofágica. Trinta e poucos anos depois nos damos conta: os tropicalistas estavam (apenas) antecipando o mundo de nossos dias, culturalmente globalizado pelas redes da Internet.

Referências Bibliográficas

_________________. Colégio Rainha da Paz – Música Popular brasileira: Tropicalismo: São Paulo, 1999.
http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/musica/historia_musica/mpb/Tropicalismo.htm

_________________. História da Arte – Tropicalismo: São Paulo, 2001.
http://www.artesbr.hpg.ig.com.br/Educacao/11/interna_hpg12.html

BONDAN, M. P. Tropicalismo - Aulas Virtuais com o Professor Bondan. Porto Alegre, 2000.
http://www.bondan.pro.br/aulas/tropicalismo.htm

CALADO, C. Revista Eletrônica de Música - Tropicalismo: nova atitude, nova música. Rio de Janeiro: Clique Music Editora, 2002.
http://cliquemusic.uol.com.br/br/Generos/Generos.asp?Nu_Materia=28

CALADO, C. Tropicália: A História de uma Revolução Musical. São Paulo: Editora 34, 1997.

KRUEL, K. Torquatália - Tropicalismo ou Cruzada Tropicalista: Teresina, 2001.
http://www.kenardkruel.hpg.ig.com.br/tropicalismo.htm

NAPOLITANO, M. Alta Fidelidade - O Tropicalismo no Contexto dos Festivais: Brasília, 1997.
http://www.geocities.com/altafidelidade/trop_cont.htm

NETO, A. R. Fundação Espaço Cultural da Paraíba - Permanência do Tropicalismo: João Pessoa, 2000.
http://www.funesc.com.br/engenho/textos/lite_t06.htm

VELOSO, C. A Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Relação de Canções mais Significativas do Movimento Tropicalista

“Alegria, Alegria” – Caetano Veloso
“Domingo no Parque” – Gilberto Gil
“Tropicália” – Caetano Veloso
“Superbacana” – Caetano Veloso
“Soy Loco Por Ti América” (Gilberto Gil/ Capinam) – Caetano Veloso
“Marginália 2” (Gilberto Gil/ Torquato Neto) – Gilberto GilMutantes
“Miserere Nobis” (Gilberto Gil/ Capinam) – Gilberto Gil e Mutantes
“Lindonéia” (Gilberto Gil/ Caetano Veloso) – Nara Leão
“Parque Industrial” (Tom Zé) – Tom Zé
“Geléia Geral” (Gilberto Gil/ Torquato Neto) – Gilberto Gil
“Baby” (Caetano Veloso) – Gal Costa e Caetano Veloso
“Enquanto Seu Lobo Não Vem” (Caetano Veloso) – Caetano Veloso
“Mamãe, Coragem” (Caetano Veloso/ Torquato Neto) – Gal Costa
“Bat Macumba” (Gilberto Gil/ Caetano Veloso) – Gilberto Gil e Mutantes
“Saudosismo” – Caetano Veloso
“É Proibido Proibir” (Caetano Veloso) – Caetano Veloso
“Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil e Caetano Veloso) – Gal Costa
“2001” (Rita Lee/ Tom Zé) – Mutantes
“São, São Paulo” (Tom Zé) – Tom Zé

posted by Unknown / 6/19/2004 10:10:00 PM

domingo, junho 13, 2004

Análise do Livro: PT – A Lógica da Diferença

Os anos 70 ficaram marcados pelos primeiros passos da redemocratização brasileira. A partir de 1974, com a grande vitória nas eleições legislativas do MDB, que conseguiu fazer das eleições em movimentos plebiscitários em relação ao regime militar, iniciou-se um processo de abertura pelos militares e um movimento maior da sociedade civil em torno desse desejo – com movimentos sociais, sindicais, etc. – e também um debate sobre a transição entre os intelectuais, políticos e população.

Nesse período começou um amplo movimento de oposição ao autoritarismo, que fez com que Geisel inicia-se a tal liberalização da ditadura, abrindo certos mecanismos para dar vazão ao movimento oposicionista que crescia e derrubava as bases da ditadura. As eleições municipais de 1976, com nova derrota da Arena, “convenceu o regime militar de que o quadro eleitoral existente teria de ser modificado, se quisesse manter sob controle” esse processo, como aponta a autora Margaret Keck. A saída foi acabar com os dois partidos existentes e liberar a criação de novos partidos, com o intento de desarticular a oposição. E assim foram criados o PDS (ex-Arena), PMDB (ex-MDB), PP (que dissolveu poucos anos depois), PTB (revivendo a época de Vargas) e o PDT de Brizola, na Reforma Partidária de 1979.

A Formação do PT

Mesmo assim, os movimentos populares necessitavam de um novo partido, formados das bases e não “de cima para baixo”, como foram formados todos os já citados, aproveitando as estruturas existentes e dominadas pelas classes conservadoras. E com o crescimento dos movimentos sociais, o surgimento do novo sindicalismo e das CEB’s, principalmente em São Paulo, a proposta de um partido democrático e popular, com desejos socialistas e basicamente, assim, formou-se o Partido dos Trabalhadores. O PT é considerado pela autora uma anomalia do processo político brasileiro, justamente por possuir esse caráter de base, ao contrário de todos os outros partidos, formados pelas elites nacionais.

A constituição do PT, sem uma base parlamentar, era uma situação muito difícil, por isso o partido apostou na organização partidária nos diretórios dos municípios, antes de iniciar os trabalhos formais do PT. Segundo Margaret Keck, o PT formulou seis itens para o início dos seus trabalhos: “método de elaboração, concepção geral, programa para a democracia, programa para a sociedade, programa para a conjuntura e plano de ação”.

Um dos problemas na organização do PT eram suas diversas facções de esquerda dentro de seu partido. Convergência Socialista, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Fração Operária, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Ação Popular Marxista-Leninista disputavam espaço dentro do partido, sem pensar na idéia “reformista” do PT, discordando desta, inclusive. Isso gerou uma confusão muito grande em seu interior, pois, apesar do caráter democrático do partido com as diversas opiniões, não havia uma unidade muito clara em suas bases, cada um lutando por si próprio, somente. Apenas após posições sérias dos líderes, como Lula, e muitos debates no cerne do PT, algumas fações acabaram saindo e o partido encontrou seu caminho.

Discussões Internas

Em meados de 83, as principais lideranças do partido procuraram se consolidar. Membros da ala sindical, militantes católicos e intelectuais dentro do PT formaram a Articulação dos 113, com o escopo de estabelecer uma visão mais unificada da natureza e objetivos do PT, sem com isso, eliminar as diferenças entre as tendências. Este quadro novo espalhou-se por todo o país, com debates democráticos internos a respeito das posições com relação ao partido. Os resultados dessa articulação promoveram distinguir as diversas correntes dentro da instituição, respeitando-as, mas, acima de tudo, como coloca Keck, “constituir um grupo de liderança” próprio para o partido.

A intenção de erguer tal “coalizão dominante” a uma espécie de “centralismo democrático” – com a adoção de eleições proporcionais para os órgãos internos – no Partido dos Trabalhadores tentou dizer “quem é quem” nas fileiras do PT. Ocorre que, somente com o V Encontro Nacional do partido, em 1987, foi possível segregar quem queria aproveitar do partido para desenvolver suas teorias anti-PT (numa certa forma de discriminar os grupos mais à esquerda, a meu ver). Definiram resoluções afim de deixar clara a posição do “PT de cima”, ou seja, “um partido democrático de massas e socialista”, ao invés de uma “frente de organizações políticas”. Estabeleceram-se normas de conduta dessas tendências, dando direito delas se posicionarem como tal e atuarem dentro do PT, desde que ligadas ao conteúdo programático do partido e a acatarem as decisões que fossem tomadas, tendo direito a divergir das mesmas.

Impedimentos contra o PT

“As exigências da nova legislação partidária aprovada em 1979 exerceram uma influência crucial sobre a maneira pela qual se estruturou o PT e os esforços que desenvolveu para se tornar um partido com base de massa e internamente democrático”, coloca Keck. E isso se mostrou de forma muito clara, pois o regime controlou todos os passos para a formação do PT, impedindo ao máximo a sua efetivação.

Essa legislação limitou a articulação de toda a oposição, não só do PT. A lei da época especificava o número de membros que um partido teria que recrutar nos locais para ser reconhecido e poder Ter candidatos nas eleições. Outro aspecto era quanto ao financiamento que proibiam doações de organizações e “exigiam que todos os doadores constassem de uma lista no relatório oficial enviado ao estado”. Além disso, a proibição dos sindicatos em Ter relações formais com os partidos impediu o PT de estruturar melhor sua base financeira, como no caso de outros países como a Inglaterra, que o Partido trabalhista Britânico obteve auxílio crucial dos sindicatos.


As Eleições no caminho do PT

O Partido dos Trabalhadores utilizou a campanha para as eleições municipais de 1982 como instrumento de organização. Ocorre que este teve um caráter dúbio, pois ao mesmo tempo que o discurso era de que o partido entrava para ganhar – principalmente em São Paulo –, por outro lado era reforçada a idéia de usar o pleito para divulgar as idéias e preceitos que o novo partido estava fundamentado (pela “maioria da classe trabalhadora”), sem desviar de seus objetivos programáticos. Essa ambivalência permaneceu durante as eleições, o que resultou num fracasso total, com poucos triunfos, principalmente por manter a visão única da “problemática de classe”, como coloca a autora.

Outro fato que prejudicou foi a manutenção do caráter oposicionista do PMDB em relação ao PDS (regime militar), colocando as eleições como plebiscitárias. Inclusive os peemedebistas utilizaram muito o discurso do “voto útil”, atribuindo ao PT como um instrumento de entrave da volta menos conturbada e mais rápida à democracia. O PT, em sua contrapartida, atacava o PMDB de ser uma aliança conservadora-burguesa, tendo muito pouco a ver com o povo, reafirmando o caráter “de cima prá baixo” da transição conduzida pelo regime e com apoio da oposição oligárquica.

Já nas eleições para as prefeituras das capitais, em 85, o PT, após seu “retorno às bases” e maior reflexão de seus horizontes, começou a incluir candidatos da classe média em suas fileiras, ampliando assim, sua proposta como partido, até por conta da insatisfação desta classe social em relação aos governos autoritários e a pseudo-oposição do PMDB. Essa proposta pluriclassista, objetivando maior vitória no pleito municipal vai de encontro ao conceito de Adam Pzeworski, citado no livro por Margareth Keck: em permanecendo apenas com sua base operária resultados satisfatórios minguarão, ao passo que, abarcando outras classes descontentes, tende-se a obter melhores ganhos.

Bibliografia: KECK, Margaret. PT A Lógica da Diferença: O Partido dos Trabalhadores na Construção da Democracia Brasileira. São Paulo, Ática, 1991
posted by Unknown / 6/13/2004 10:16:00 PM

quarta-feira, junho 09, 2004

Análise do Livro: Lições de Liberdade e de Opressão

A partir de 1974, com a crise mundial decorrida do petróleo, o milagre econômico do Brasil “ame-o ou deixei-o” acabou. Com isto, parte da classe média que se refestelou até àquele momento do crescimento econômico desordenado do país começou a se voltar contra o regime, se unindo, mesmo que à distância, às classes populares contra as milhares de torturas, chacinas e outras formas de violência praticada pelo governo. Reflexo disso fora as eleições de 74, em que a derrota dos generais nos estados e municípios agravou a crise entre os militares.

Esse fracasso resultou em conflitos estruturais seríssimos, colocando em cheque a conduta do governo, que aventou inclusive a possibilidade de abrir o país novamente para uma democracia, já que as lutas internas arrefeciam seus objetivos e a opinião pública, agora reforçada por algumas elites, pressionava. O que se discutiu, a seguir, foi o tipo de abertura a ser realizada no país. O método adotado, chamado de abertura “lenta, gradual e segura”, por Ernesto Geisel, reflete bem o real desejo dos generais da “revolução”. Manter o poder na mão destes e das elites, sem participação popular nos rumos da política brasileira.

O que se fez na realidade foi uma “liberalização outorgada”, como diz Florestan Fernandes . Isso quer dizer que liberou-se alguns pontos da políticas, como a concessão de anistia para (nem todos) os presos políticos, a volta dos partidos e a liberdade de imprensa, mesmo que assistida de perto pelos órgãos repressores. No contraponto disto reprimiu ferozmente qualquer tipo de manifestação popular e manteve alguns artigos do AI-5, mesmo abolindo-o em 78, como a proibição da greve e o enquadramento pela lei de Segurança Nacional, um absurdo criado para eliminar qualquer um que fosse contra o regime.

Ocorre que o problema do regime foi justamente não aproximar suas propostas do povo. Como foi um golpe de “cima para baixo”, não houve participação ou sequer consulta das massas no período pós-64 e esse distanciamento, segundo José Álvaro Moisés, foi decisivo para o fracasso da ditadura. Até porque recorria sempre a força a qualquer sinal de discordância por parte da população, sem fazer uma ponte com os movimentos sociais, ou mesmo com a oposição conservadora que inflava o velho MDB.

Isso mostrou toda a fragilidade do regime que, perdido em conflitos internos, sem apoio das bases e sem toda a parceria oportunista da burguesia nacional e internacional – que não achava mais necessária a ditadura para o crescimento econômico –, viu-se na única saída de promover a abertura, mas claro, seguindo a seu modo de “avanços e recuos”, para manter o controle do processo de transição.

Todo esse contexto abriu espaço para o ressurgimento da classe popular na luta por melhores condições de vida e pela democracia, no caso de São Paulo, especificamente, através dos movimentos sociais, das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e do chamado “novo sindicalismo”. O crescimento desses movimentos fez coçar as cabeças dos mandatários brasileiros, pois era aquilo que eles e as elites mais termina: a mobilização do povo.

O “Novo Sindicalismo”

Mas voltando um pouco na questão destes movimentos, analisarei agora a retomada do movimento sindical, especificamente na região do ABC, que é na verdade o foco de estudo, tanto do autor quanto o meu, já que o objetivo desta análise é compreender a formação das bases históricas em que foi construído o Partido dos Trabalhadores.

Este “novo sindicalismo” apareceu forte em 1978, com a primeira greve dos metalúrgicos no ABC paulista. Isso gerou ampla repercussão no Brasil, causando greves em diversas outras fábricas espalhadas pelo território nacional. A proposta da greve era reivindicar o aumento salarial real e não os famigerados dissídios coletivos, que eram acréscimos anuais controlados pelo estado autoritário. O evento ocorreu por conta da divulgação de que a inflação estava sendo manipulada há alguns anos, informando dados mentirosos que afetavam o aumento de salários dos trabalhadores. O movimento conseguiu o objetivo e saiu fortalecido para mais reivindicações.

Na verdade, segundo autor, o movimento vinha buscando espaço desde 1972-73. Mesmo ainda atrelado ao estado, os sindicalistas organizados do ABC procurava se desvincular das amarras institucionais do governo, buscando autonomia em suas ações. Desejavam também trabalhar mais nas bases do sindicato, articulando-as. Estas atitudes, bem ao contrário das experiências anteriores, herdadas do Estado Novo, em que o sindicato era apenas uma extensão das posições do governo federal. A intenção era, de acordo com Moisés, de desburocratizar os sindicatos, dando uma conotação totalmente nova para eles, em que os trabalhadores somente tivessem, por exemplo, poder de negociação direto com os patrões, algo proibido até então pelo regime, mas que, com as greves ficou um tanto quanto à deriva.

Outra preocupação relevante era de evitar a vinculação do movimento sindical a partidos políticos, fato que servirá, segundo Moisés, como uma espécie de “correias de transmissão”, ou seja, repetiria somente os desejos dos partidos, que possuem uma proposta segmentada a uma classe específica. Isso causaria certamente um conflito, já que os anseios sindicais estão mais no âmbito corporativo. Por isso, a preocupação focou sempre em não ligar a imagem de nenhum dos líderes sindicais, como Lula ou Olívio Dutra, ao projeto de partido que já vinha sendo estudado – o Partido dos Trabalhadores – e esses próprios colocavam as ambas as coisas como distintas para não atrapalhar os planos das instituições.

Contudo, o mais interessante de notar é que o “novo sindicalismo” transcendeu suas lutas uterinas de reivindicações econômico-corporativas, buscando uma articulação com outros setores da sociedade, no caso das classes populares, para brigar por questões objetivando um todo maior, saindo de negociações de salário, melhores condições de trabalho, direito de greve, autonomia sindical, entre outros, para, junto com os demais movimentos sociais e a igreja – renovadora na época por conta da teologia da Libertação – clamar pela transição mais rápida à democracia e que fosse para todos, com participação da população. Isto é, esses movimentos intervieram no pacto político entre ditadura e elites, pedindo por seu espaço nas negociações.

A Formação do Partido dos Trabalhadores

Esse espaço conseguido pela classe trabalhadora ganhou ares maiores com a criação do Partido dos Trabalhadores (PT) que tinha como objetivo servir de instrumento destas classes participarem mais ativamente da política no país. Mas que isso, a novidade recaia na mobilização popular para gerar um partido que englobasse todos reclames das populações excluídas do Brasil desde 1964. O PT colocava na prática política todas as lutas realizadas pelos diversos movimentos sociais ao longo da década de 70, incluindo-se aí os sindicatos e a igreja, este último, ator preponderante para o fomento e continuação da luta pela liberdade política.

Certamente o regime não desejava um levante popular desta magnitude, tanto que o general Golbery do Couto e Silva disse na época que a formação do PT era algo inesperado pelo governo da “revolução”. E claro, muitos obstáculos foram postos contra o registro definitivo do partido, na época de sua consolidação. Acusações de senadores da Repúblicas, como Paulo Brossard (PMDB), de que o PT era um partido classista – o que não era permitido pela lei eleitoral do período –, entraves burocráticos e prisões de seus principais líderes eram feitas para impedir a concretização do sonho dos trabalhadores brasileiros de formular a sigla.

Até as oposições que deveriam apoiar a construção de uma nova alternativa política, como se desenhava o PT, foram contra. Seus motivos eram vários, como a luta pelos governos estaduais em 1984 ou até mesmo defender outros de seus interesses já garantidos, revelando “a face conservadora” que essas ditas oposições possuíam. Isso ficou claro no pacto realizado entre os membros da ditadura e as elites do país, incluindo-se aí as oposições. A abertura “lenta, gradual e segura” era para manter somente as elites no poder, mesmo tendo que agregar certos liberais e outros conservadores da política nacional em suas fileiras, misturando ambos os lados de tal forma que ficara difícil detectar quem é quem.

E no meio disso tudo o PT, esmurrado de todas as formas, ia se fortalecendo com a população aos poucos aderindo ao partido, já que o mesmo não se definira por nenhum caminho programático, preferindo o diálogo, a abertura, para depois acertar dentro de suas bases o rumo a tomar. Esta escolha facilitou o aumento de pessoas no partido, mas creio que iniciou um complicador num futuro, que é o de obter correntes totalmente diversas dentro do PT, sem direcioná-lo para um objetivo. Certamente que não se fechar em um só mundo é importante, mas essa “liberalização” da entrada de pensamentos fortemente diferentes serviu para embates e ilusões que afetaram e afetam ainda hoje o PT. Mas isto será analisado a posteriori, após leituras mais aprofundadas quanto a formação do Partido dos Trabalhadores.

Bibliografia: MOISÉS, José Álvaro. Lições de Liberdade e de Opressão: Os Trabalhadores e a Luta pela Democracia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
posted by Unknown / 6/09/2004 09:12:00 PM

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