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sábado, maio 31, 2003

A luta não mais continua, companheiros

Um passeio pelo mundo atual. A surpresa pela voraz transformação. A constatação de um fracasso: o nosso.

Ele caminha desolado por entre as ruas. Parece não acreditar em tudo que seus saltados olhos vêem. Os pingos batem em seu casaco preto e surrado, fazendo pesar a roupa permeável. De repente um susto. Algo passa apressado, quase a derrubá-lo. Era um garoto entregador de frangos que estava atrasado em sua missão. O bom velhinho não entendia o porquê de tanta pressa. Mesmo que temesse que um dia isso viria a acontecer, não imaginava que seria tão devastador.

Após duas horas caminhando comigo pela cidade, vagando totalmente sem destino pelos becos, favelas, bolsas de valores, centros empresariais, e tudo o mais que significava a vitória–derrota acachapante do capitalismo canibalesco, ele parou. Avistou um grupo de meninos nus, saindo de um barraco feito de madeira velha e podre. Olhou em volta e avistou putas, padres, bêbados, comerciantes e táxis. Inclinou sua cabeça para o chão e fez sinal de negativo com a mesma. De repente disse: “porque aceitei este convite?”. Nosso autor se referia a minha solicitação para trazê-lo de seu profundo, clássico e tranqüilo descanso para conferir o que acontecia depois de quase duzentos anos de luta por uma vida mais justa e igualitária. “É o fim”, dizia ele. “E eu que pensei que o capitalismo teria fim um dia, derrotado pelo socialismo, que faria a transição para um sistema único e para todos, estou vendo exatamente o contrário: o triunfo do capital sobre as pessoas”.

Finalmente Karl Marx sentia, depois de mais de um século, o fracasso. Nada do que escrevera antes, nem o “Manifesto Comunista”, com seu amigo Engels, nem com a Gazeta Renana, jornal onde relatou suas opiniões e posições durante anos. Muito menos sua principal obra, “O Capital”, em que a crítica, embasada em argumentos claros e transparentes deixava urgente a necessidade de uma atitude que alterasse o quadro tenebroso que ele vivia na época e que, na entrada do novo milênio ele não imaginava encontrar. Nem a Revolução Russa com Lênin, nem Cuba com Che Guevara, nem nada que se tentou após a vida de Marx resultou em pleno êxito. Agora tudo se baseia no neoliberalismo, na abertura de das economias, no lucro levado as últimas conseqüências, na mais-valia, detectada por nosso pensador, como a fonte para a desigualdade de renda e exploração de mão de obra. Os meios de produção totalmente nas mãos de quem ele sempre combateu, com teses que servem de base até hoje na História da Humanidade.

Apesar de muitos chamarem-no de ultrapassado, velho e arcaico, suas idéias ainda fervilham nos pensamentos de muitos admiradores de seus escritos. O problema é, como mostrou-se ao autor, que seus “seguidores” se perderam em seus textos e esqueceram de agir, se perdendo em palavras e situações inúteis, destruindo toda a possibilidade de um caminho melhor, contra aquilo que se criou com Hayek e seu livro, “O Caminho da Servidão”. O definitivo socialismo científico criado por Marx não mais satisfaz os hipócritas social-democratas que não desejam perder de vista seu capital. Os atuais esquerdistas se perdem na corrupção conservadora da direita, e calam-se ou enturmam-se com as conspirações vindas da burguesia. Quem pretende mudar comove-se com tudo que vê, mas nada faz para alterar esse modus vivendi.

Para Marx restaram as lágrimas e o pessimismo, a constatação da deturpação de tudo que ele criara e direcionara no passado. Foi a verificação de um fim para aquilo que convencionou chamar de marxismo. O começo do fim está nas mãos do capitalismo neo liberal-canibal, que está fazendo bem o trabalho, quebrando todas as correntes de resistência. Muito diferente do que Marx idealizou na “ditadura do proletariado”, onde o povo tomaria o poder e mandaria nas ações e rumos do governo. Sem políticos escabrosos, nem empresários oportunistas, apenas o povo e sua comuna, como em um mês de 1848 em Paris. Mas isso tudo era longínquo e efêmero em demasia, como sua estada, que chegara ao fim. A contemplação do fracasso da humanidade que amargara Marx profundamente neste dia, encerrava-se. Chegara a hora de partir de volta para casa. O momento era de despedida e desprendimento, mas com uma ponta de esperança. Talvez, um dia, isso chegue a tal ponto destrutivo, que as pessoas poderiam pensar em viver para si no todo e não somente para si e seu lucro.
posted by Unknown / 5/31/2003 02:21:00 PM

segunda-feira, maio 26, 2003

Ventura traz um Los Hermanos renovado

Canções novas, com temas e composição diversificadas se fazem presentem show da banda
fonte: www.loshermanos.com.br

Com muita energia e simpatia, os Los Hermanos conquistaram o público do Sesc Interlagos

A banda carioca Los Hermanos apresentou as canções de seu novo disco chamado Ventura em show no último dia 18, no Sesc Interlagos. O quarteto formado por Marcelo Camelo (vocal e guitarra), Rodrigo Amarante (vocal e guitarra), Bruno Medina (teclados) e Rodrigo Barba (bateria), acompanhados de um baixista contratado, tocou para o programa Bem Brasil, exibido ao vivo aos domingos pela Tevê Cultura.

O interessante ficou por conta do grande número de músicas do segundo disco no setlist da apresentação. Canções como “Todos Carnaval tem seu Fim”, “Sentimental”, “Retrato pra Iáiá” e “A Flôr”, foram degustadas com alegria pelos fãs presentes. A cover de Belchior “Palo Seco” encerrou a exibição, mesmo após o fim do programa, em uma espécie de bônus para o público do Sesc. Do primeiro CD apenas a agitada “Quem Sabe”, foi executada.

Mas a expectativa mesmo estava em torno da apresentação ao vivo das canções de Ventura que nem havia sido lançado, fato ocorrido na segunda-feira passada. Entre as especiarias estavam a faixa-single “Cara Estranho”, “Samba a Dois”, “De onde vem a Calma” e “Além do que se Vê”, que levantou quem assistia a performance do grupo. A essência das músicas se assemelham ao Bloco do Eu Sozinho – trabalho anterior da banda –, mas a comparação pára por aí. A Presidente do Fã-clube oficial do Los Hermanos Katia Juliana, 23, indica o caminho de Ventura: “O modo de compor, os temas e sons das músicas são muito diferentes dos dois primeiros discos”

Nem o peso de Los Hermanos de 1999, nem a calmaria do Bloco... de 2001. O terceiro trabalho do grupo poderia ser identificado então como a junção desses dois, mas engana-se quem pensa desta maneira. Patrícia Santos, outra fã, afirma: “O Ventura é um disco que tem uma cara própria, deixa bem claro para nós o jeito de compor do Amarante e do Camelo.” Isso fica claro mesmo em uma apresentação ao vivo, que normalmente deixa o som descaraterizado do original em estúdio. Isso acontece pois as guitarras acabam naturalmente se destacando mais, a bateria de Rodrigo Barba fica mais crua e os efeitos e a percussão não são utilizados. Mesmo assim nota-se a independência de Ventura em relação aos outros discos.

Para quem teve a impressão de o Bloco do Eu Sozinho ser muito menos comercial que os hits “Anna Julia” e “Primavera” do CD de estréia vai se assustar ao ouvir Ventura, principalmente ao vivo. Em nada lembra aquelas músicas exaustivamente tocadas nas rádios, tendo sido mais mergulhadas ainda no lado alternativo do som do grupo. Como disse a desempregada Amanda Mendonça, 23, presente ao espetáculo: “O som para mim continua Los Hermanos”. E essa impressão é registrada nas novas canções, pois mesmo alterando o som a estrutura não se modifica, mas evoluí.

Camelo e Amarante buscaram na diversidade musical a condição de fazer um disco com guitarras pesadas e bateria a lá “anos 60”, como em “Cara Estranho”, sem deixar a paixão pelo samba-gingado cultivado pelos integrantes, como na já citada “Samba a Dois”. As músicas ecoaram no Sesc Interlagos mais pesadas em certos momentos, mantendo porém o romantismo das letras com climas mais parados e densos. A apresentação de aquecimento para a turnê deixou todo o público muito satisfeito, como Katia Juliana, que afirmou: “O show do Bem Brasil foi muito lindo”.

A felicidade de quem presenciou o espetáculo coroou a simpatia e simplicidade dos integrantes da banda, que após o show atenderam a todos os fãs que solicitavam fotos e autógrafos. No meio de elogios e agradecimentos, Marcelo Camelo disse estar satisfeito com a recepção ao novo disco, esperando retornar para São Paulo em breve para mais shows. É esperar prá ver. Enquanto isso a platéia, tanto ao vivo quanto em casa, podem se deliciar com Ventura, pois, como disse Patricia Santos, “é um disco sublime”.
posted by Unknown / 5/26/2003 01:12:00 PM

domingo, maio 11, 2003

Músicas para Almas Aflitas

Como o estado de uma pessoa pode influenciar na obsessão de ouvir determinada música

Engraçado como às vezes nos prendemos a certas canções. Ficamos a ouvi-las intermitentemente, cinco, dez, vinte vezes, até estourar a paciência. Pode parecer algo meio tolo, mas na verdade reflete algum sentimento recôndito perturbando o coração e mente naquele momento/dia/semana.

Isso sempre acontece comigo quando me sinto deprimido. Pode parecer uma fuga interessante, ou, muito pelo contrário, talvez transpareça o desejo real de manter-se triste, curtindo efetivamente aquela dor. Hoje isso me afetou de um jeito totalmente especial, pois nada parecia estar tão distante quanto um instante triste como o que se deu neste frio domingo nublado em São Paulo. Havia tanta tarefa para fazer – e nem vale ficar falando delas agora –, que não me sentia vazio. Mas essas coisas definitivamente não pedem licença nem momento para acontecer.

Eu estava rebobinando a fita do filme Orange County – muito bom, por sinal, risadas garantidas em um tema bastante complexo, ponto para o escritor da história e o produtor da película – quando resolvi “zapear” na MTV. Estava tocando a música nova do Rodox, “De Costas Para o Mar”. Nada demais né? Exato. Eu já conhecia o som e curtia, pois enquanto a música corre na pauleira instrumental, o vocal do Rodolfo – agora Rodox – segue melódico, sendo uma canção trabalhada, muito longe das pedradas sonoras do Raimundos. Mas dessa vez a canção me tocara profundamente, tanto que eu pensei: “quando eu ligar o PC vou buscar a mp3 dessa música”.

Dito e feito. Lá fui eu à tarde “pescar” a melodia no Kazaa. Demorou um pouco a “baixar”, mas valeu a espera. Botei no Winamp para tocar e o que se sucedeu foi uma enxurrada de sensações que nenhuma droga traz ao ser humano. Mas vieram consigo dores múltiplas, perturbações, parecendo condicional ouvir a música e ser submetido a tantas emoções. Acontece que isso me deprimiu muito, mas ao mesmo tempo fez crescer um maior interesse na canção, fazendo com que eu a ouvisse umas cinco vezes seguidas, empurrando a ouvir mais e mais coisas do tipo – no caso, totalmente tristes – criando uma atenção maior para a letra, tanto que eu digitei a mesma no computador e até mandei para uma lista de “amigos”. Mas aí começava o jogo do São Paulo – que lástima –, e então eu acabei indo fingir que estava bem e tive alguns momentos de falsa-euforia.

Mas sabe quando tem algo lhe incomodando? O dia passa, as horas voam, mas sempre fica algo espezinhando o coração, deixando uma sensação terrível lá dentro. E não foi diferente. Ocorreu isso com outras músicas, como a versão do Oasis para “Cum On Feel the Noise”, que nem é melanólica. “Hey Now”, “Sad Song” e “Let’s All Make Believe” acompanharam o escrete de músicas-obsessão. As traduções são belíssimas e realmente dizem algo da confusão que se ressente dentro de mim. Mas não colocam sentido de direção, muito menos dizem a causa de toda essa situação.

Após a partida na televisão voltei a ficar em frente a tela do micro, busquei minha mp3 do Rodox, deixei no repeat e a ouvi mais cinco vezes. Mas chega né? Já cansou. No entanto, mesmo essa loucura em escutá-las passa, ficando um sentimento de vazio, preguiça e inércia inexplicáveis. Agora escuto Blurry do Puddle Of Mud, que mesmo sendo “musiquinha” de rádio, tento sido executada ad nauseam nas rádios paulistas, é fantástica, principalmente a versão acústica que tocava na rádio paulistana Brasil 2000. Vale a pena conferir.

Mas nunca, nunca aproveite seu estado depreciativo-pessimista para ouvir músicas melancólicas, a não ser que você tenha tendência a isso, pois se tiver essa queda a auto-piedade, não há ninguém para impedir-lhe desse suicídio emocional. Pelo menos é assim que vejo esse suplício, ao menos comigo funciona assim. Pois essas coisas vão matando a gente aos poucos, definhando, maltratando, até o dia que largarmos tudo de vez, tendo dois caminhos diferentes para esta possibilidade.

ps: Enquanto terminava este texto tocava “Carry us All”, também do Oasis. Só quem conhece a música sabe o quão ela é melancólica e triste.


posted by Unknown / 5/11/2003 07:18:00 PM

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